Em cena - Entrevista

À pouco menos de um  mês que ocorreu a deportação de Daniel Peixoto, vocalista da Banda Montage, o produtor Ricardo Lisboa fala pela primeira vez sobre o acontecido numa entrevista exclusiva ao FD
@Por Davi Santos
Neste mês de Dezembro acontece em Salvador um dos maiores festivais de Música, tecnologia e arte do Brasil.
O evento que acontece no Pelourinho deverá reunir milhares de pessoas na Praça Tereza Batista. Vai ter muita música eletrônica, moda Hype, artistas contemporâneos e dentre tantas atrações a Banda Montage estará pela segunda vez na cidade mostrando novidades e o poder de seu electrofunk tão elogiado em todo o mundo.
 
Aproveitamos a oportunidade e batemos um papinho com o produtor do grupo Montage Ricardo Lisboa que fala sobre a ansiedade em voltar à Salvador e conversa pela primeira vez, sobre o ocorrido com o vocalista Daniel Peixoto, deportado de Londres no mês passado
 
Entrevista por Davi Santos
Após um ano em ter tocado em Salvador, o que vocês esperam neste retorno e em um evento como o Boom Bahia?
A gente sempre quis voltar pra Bahia logo. O público daí foi incrível no primeiro show, teve gente que levou cartazes do tipo: suruba com montage, rsrsrs e é uma galera que não tem nenhum pudor em se jogar. Acho que pra esse show vai ser a mesma vibe multiplicada por 10 ou 100, já que será num evento gratuito e no lugar mais simbólico de salvador, pelo menos pra nós que não somos daí, que é o pelourinho.
 
O que o público poderá esperar de novidade principalmente os fães neste retorno à Salvador?
Nesse período fizemos várias músicas novas, tocamos muito por todo o brasil, e com isso o show ficou bem mais aperfeiçoado. Exclusivamente pro festival, preparamos uma homenagem a vários ícones da música pop baiana, mas o que a gente espera mesmo é que o público se acabe de dançar.
 
Quais são as influências sonoras e de imagem de vocês?
sex pistols, david bowie, daft punk, madonna, underworld, slayer, justice, vive la fête, marilyn manson, calypso.
 
Sobre a deportação: Passados alguns dias o que fica de lembrança do acontecido em Londres e o que o Montage está fazendo para se recuperar deste trauma?
Fazer o que sempre fizemos, quebrar tudo nos shows e mostrar que a Europa perdeu mais do que a gente com essa palhaçada toda. Mas não ficaram sequelas, em maio voltamos pra lá e vamos fazer tudo o que não foi possível agora.
 
Você acha que houve algum tipo de preconceito e o que está sendo feito judicialmente para que seja amenizada esta situação?
Houve preconceito sim e em vários graus. preconceito contra a aparência, preconceito contra a nacionalidade, preconceito quanto à sexualidade e tão grave quanto isso, houve uma sequência de maus tratos que só acabou dentro do avião de volta pro brasil, depois de 32 horas trancado numa sala. Já temos advogados que estão envolvidos no caso e vamos levar à justiça sim, mesmo que não dê em nada, é uma questão de dignidade e de transparência, pra que pelo menos entre nas estatísticas de violação dos direitos humanos, o que já vale bastante.
 
Alguém já procurou vocês, o setor de migração já tentou se retratar sobre o ocorrido?
Não, a embaixada briânica não se manifestou e disse que não se manifestará por conta de um caso isolado. Queremos uma retratação formal do governo britânico.
 
Como o Governo Brasileiro se comportou em relação ao ocorrido?
Recorremos ao Itamaraty assim que tivemos a certeza de que o Daniel estava detido, chegamos a conseguir que a ministra Marta Suplicy intercedesse, mas a verdade é que o governo britânico está pouco se fodendo pro brasil, e essa condição de cidadão de segunda classe fica evidente quando se sabe as condições que as pessoas enfrentam na imigração. Não é coincidência que na sala onde ficou o Daniel só havia pessoas do Irã, Iraque, Paquistão, México, Kosovo e Brasil.
 
Alguma providência será tomada em relação a tudo isso?
sim, como eu te disse, os advogados já estão no caso.
 
No ponto de vista político e social englobando Brasil e Londres, qual a sua reflexão sobre tudo isso e qual é a mensagem que o Montage gostaria de deixar para todos aqueles que foram vítimas desta mesma situação?
Políticamente, o Brasil não tem nenhum poder frente à Inglaterra, e isso é desde sempre. Falo do país mais rico da Europa, da moeda mais forte do mundo. Esse poder econômico confunde as outras relações e acredito que pra muitos dos funcionários da imigração, gente de país pobre não tem o que fazer ali, onde não poderia viver fora da ilegalidade. Mas nada disso justifica o que todas as pessoas que são detidas tenham de passar por um processo humilhatório exatamente igual a de um bandido perigoso.
Espero que essa experiência sirva realmente como um incentivo à indignação.
 
O Montage se apresenta no Boom Bahia neste sábado dia 08 de Dezembro ás 21hs na Praça Tereza Batista no Pelourinho. Clique aqui e veja a programação completa.
 
Entrevista realizada em 06 de Dezembro de 2007
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