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Direitos
GLS - Ativismo
- 01.08.2006-Projeto de lei equipara homofobia a racismo
- @Por
Daniel Lisboa
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Uma pesquisa de opinião realizada pelo Ibope
constatou um resultado desolador para os que lutam pela igualdade entre
homossexuais e heterossexuais: 56% dos entrevistados mudariam sua conduta em
relação a um colega de trabalho que revelasse ser gay e 20% passariam a
evitá-lo, 36% deixariam de contratar um homossexual para um cargo em sua empresa
mesmo que ele fosse o candidato de melhor qualificação e 45% trocariam de médico
se ficassem sabendo que ele é gay.
O caso do bancário baiano Antônio
Ferreira dos Santos materializa essa triste estatística. Funcionário do
Bradesco, o maior banco privado da América Latina, Santos afirma ter suportado,
até fevereiro de 2004, uma rotina de humilhações constantes devido a sua
condição de homossexual assumido. Naquele ano, apesar dos prêmios por desempenho
e do cumprimento de todas as metas, Santos foi demitido por justa causa pelo
chefe que constantemente se referia a ele como “bicha” e “boiola”.
“Não
consegui entender a justa causa. Nunca havia me acomodado, galguei postos e
ganhei troféus pelas minhas iniciativas”, disse Ferreira à época. Indignado, o
bancário processou o Bradesco por assédio moral e discriminação sexual. Em junho
de 2005, a juíza Margareth Rodrigues Costa determinou que o banco pagasse uma
indenização de R$ 1 milhão de reais ao ex-funcionário. O Bradesco recorreu e a
ação ainda aguarda um desfecho.
Para prevenir situações como essa, a
deputada Iara Bernardes, do PT de São Paulo, submeteu à aprovação da Câmara um
projeto de lei – PL 5.003 de 2001 – que criminaliza a homofobia, seja ela
praticada por um cidadão ou pelos representantes de um órgão ou empresa. Em sua
justificativa, Bernardes declarou que o projeto objetiva “respeitar as
diferenças e assegurar a todos o direito de cidadania”.
O projeto está
pronto para ir ao Plenário, esperando apenas sua vez de ser votado. Caso seja
aprovado, o crime de homofobia passará a equivaler, na legislação brasileira, ao
crime de racismo. “A lei vem ao encontro da formação de mecanismos legais
jurídicos e institucionais que contribuam com a proteção dos homossexuais”,
afirma o presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira. “Equivale ao
reconhecimento, por parte do Governo, dos direitos dos homossexuais.”
Embora faça a ressalva de que “leis não mudam mentalidades”, o
antropólogo e militante gay Luiz Mott, da Universidade Federal da Bahia,
acredita que a nova garantia vai contribuir para uma tomada de consciência dos
gays em relação a seus direitos e “ajudar a conscientizar a população a
respeitar os direitos alheios, sobretudo quando os oprimidos têm a consciência
de denunciar e exigir justiça.”
O caso de Ferreira, que recebeu um
veredicto favorável da Justiça num caso de discriminação, constitui, na opinião
de Cerqueira, uma exceção. “Ele até aqui teve sucesso no que pleiteava porque
deu a sorte de contar com a boa vontade da juíza”, afirmou. “No Supremo Tribunal
Federal, o babado é forte, é diferente”. Mott concorda: “A legislação constante
na Constituição e no Código Penal não é suficiente, pois há juízes e delegados,
devido ao machismo e à homofobia, que não consideram infração penal o insulto, a
discriminação e até as agressões contra gays, travestis, lésbicas e
transsexuais.”
Caso o projeto da deputada Bernardes seja aprovado, podem
virar praxe veredictos como o da indenização imposta pela Justiça paulista ao
Shopping Frei Caneca, em São Paulo. O Shopping, que está localizado em uma rua
famosa como ponto de encontro gay e conta com grande proporção de homossexuais
em sua clientela, foi condenado no ano passado a pagar 100 salários mínimos ao
jornalista João Carlos Xavier e ao publicitário Ricardo Rocha, repreendidos por
seguranças do shopping quando se beijavam no hall de entrada do Shopping.
O episódio se transformou num emblema da luta dos gays pelo direito de
trocar as mesmas carícias públicas permitidas aos casais heterossexuais. “Um dos
princípios básicos da Democracia e da Constituição é a isonomia, a igualdade
legal de todos os cidadãos”, diz Mott.
Embora não trate diretamente dos
casos de violência, atendo-se a manifestações mais sutis da homofobia como a
exposição ao ridículo, a proibição do ingresso ou permanência em um
estabelecimento e o atendimento “diferenciado ou selecionado”, o projeto de lei
pode levar, acredita Mott, à diminuição do número de agressões a homossexuais.
“O Brasil é campeão mundial de assassinato de homossexuais, e contamos que com
leis que proíbam e punam a homofobia, tais crimes venham a diminuir.”
De
acordo com o GGB – organização pioneira e uma das mais ativas do Brasil -, nos
últimos 25 anos foram contabilizados 2,6 mil assassinatos de gays, lésbicas e
travestis no Brasil, contabilizando-se mais de cem ocorrências desse tipo por
ano. Foram 169 mortes em 2004 contra 125 registradas em 2003. "O número dos
crimes de homofobia vem aumentando, apesar de hoje termos 140 grupos
homossexuais em todo o país", denuncia Luiz Mott.
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- Créditos:
Esta matéria foi publicada no Jornal A Tarde da
Bahia em 01 de Agosto de 2006 e editada pelo Portal
Farofa Digital
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