- A
igreja e a camisinha
- Por
Drauzio Varela
-
Os dirigentes da Igreja Católica têm a
receita infalível para acabar com a Aids: sexo, só depois do casamento e nunca
fora dele! Por isso são contrários ao uso da camisinha mesmo diante de uma
epidemia, como declarou em Indaiatuba o enviado do papa, monsenhor Javier
Lozano. Já o padre Valeriano Paitoni, que administra três casas para portadores
do HIV na zona norte de São Paulo, prega a distribuição de preservativos para os
que não podem comprá-los. "Se o preservativo protege a vida, não há como
encará-lo como um mal", disse ele à Folha. O superior imediato do padre
Valeriano, apoiado por Dom Eugênio Salles, arcebispo do Rio de Janeiro, não
gostou nem um pouco da declaração e publicou nota mal-humorada condenando o
comportamento do pároco. Nela, considerou "inaceitável a atitude do Padre
Valeriano" e, no final, concluiu: "Fui obrigado, com sincera dor, por tratar-se
de um irmão na fé e no sacerdócio, a publicar esta nota de repúdio como
tentativa de correção fraterna, a qual não exclui outras providências
administrativas e pastorais cabíveis para corrigir essa lamentável situação".
Está evidente uma divisão na igreja: a maioria dos padres que se dedicam
ao trabalho comunitário é favorável ao preservativo, enquanto seus chefes não
arredam pé da posição contrária.
Que diferença faz isso para a
disseminação da epidemia de Aids? Faz muita. Não porque homens e mulheres que já
usam preservativo venham deixar de fazê-lo apenas porque a igreja manda, mas
pela tradicional influência política que ela exerce sobre os dirigentes
brasileiros: qualquer prefeito precisa pensar duas vezes para contrariar o padre
e dez para ir contra a vontade do bispo.
Se examinarmos a questão da
camisinha do ponto de vista da saúde pública, não há o que discutir: todos os
estudos publicados demonstram que quanto mais preservativos são distribuídos à
população, menor o número de mortes por Aids. Se não há como contestar essa
evidência científica, por que insistir na posição oposta, mesmo sabendo que mais
gente vai morrer? Talvez porque a cúpula da igreja, tão empenhada em fixar a
mesma regra de conduta para toda a humanidade, tenha esquecido de que casamento
respeitoso com atração sexual mútua e persistente por anos e anos é privilégio
de poucos. Ou, talvez, porque bispos e cardeais, há muito apartados de seus
rebanhos, não levem em conta que há homens casados que vão à zona de meretrício;
que há mães de família que encontram o amante no disfarce da tarde; que há
meninas adolescentes que passam mal quando vêem um homem bonito; que há rapazes
de 17 anos que não perdoam nem poste vestido de saia; e que desde a remota
Antiguidade existe uma minoria de homens que nunca achou graça em mulher. Se não
for por essas razões, então será porque a preocupação de "suas santidades" paira
acima das misérias terrenas. Gemei e chorai neste vale de lágrimas, que vosso
será o reino do céu! De fato, o que é o sofrimento na Terra comparado à
eternidade do Paraíso?
O mercado brasileiro de preservativos não chega a
150 milhões de unidades por ano. Somos 170 milhões de brasileiros, 30% dos quais
mulheres em idade fértil (cerca de 50 milhões). Se apenas elas tivessem vida
sexual ativa, teriam direito a 3 camisinhas por ano cada uma. No meio de uma
epidemia traiçoeira como a de Aids num país com o nível de escolaridade do
nosso, toda iniciativa destinada a combater o uso do preservativo é crime contra
a saúde do povo. Dele, as futuras gerações de sacerdotes se envergonharão e
provavelmente pedirão desculpas. Como o fizeram recentemente em memória às
pessoas torturadas ou queimadas vivas em praça pública, nos quase 400 anos de
Inquisição. Ou como aconteceu com o apoio irrestrito prestado à escravização de
índios e de negros. É pena que a humildade para reconhecer erros tão graves
costume demorar séculos, no caso da Igreja Católica. Até lá, muita gente terá
sofrido e morrido por causa de uma doença sexualmente transmissível fácil de
prevenir: basta não compartilhar sangue e proteger os genitais com camisinha
durante a penetração sexual.
Escreva Para O Presidente LULA, Ministro da Justiça, ministro das relações
Exteriores SOLICITANDO QUE MANTENHAM A PROPOSTA DE INCLUIR NA COMISSÃO DE
DIREITOS HUMANOS DA ONU A ORIENTAÇÃO SEXUAL COMO DIREITOS
HUMANOS.
Ministério das Relações Exteriores Esplanada dos Ministérios
- Bloco H 70170-900 Brasília-DF Ministério da Justiça Esplanada dos
Ministéiros - Bloco T 70712-902 Brasília-DF Presidência da
República Palácio do Planalto CEP 70150-900 Brasília-DF
- Texto
de Drauzio Varela apresentado no Jornal Folha
de São Paulo
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