- Discriminação
e Preconceito
Por Suzy Kelly
Se não for em salão de beleza, clínica de estética ou oficina de corte e
costura, a travesti só consegue trabalho na prostituição. Frase parecida foi
dita ao jornal Correio da Bahia, em 01/04/2004, pela ativista Marcela Prado,
vice-presidente da Articulação Nacional de Transgêneros (travestis), que faleceu
em 23 de julho de 2004, na cidade de Curitiba – Paraná.
A afirmação parece demonstrar que as travestis são bem aceitas entre as
mulheres. Porém, o mesmo não se pode dizer em relação aos homens que as usam
sexualmente e que geralmente as repudiam, se encontradas casualmente num
ambiente socialmente comum ou na rua. E esse repúdio se dá evidentemente em
razão do medo que aquele homem tem de ser censurado pelas pessoas de sua vida
cotidiana.
Visando a diminuição e até a extinção dos preconceitos contra os
sexualmente diferentes, no final de janeiro de 2004, no Congresso Nacional, o
deputado Fernando Gabeira mencionou sentir a falta de um representante das
travestis naquela casa legislativa. Mas, mesmo com a falta dos grupos de
diferentes nos meios políticos, o governo brasileiro, na Organização das Nações
Unidas (ONU), sugeriu a aprovação de uma resolução pelo reconhecimento dos
direitos humanos dos transgêneros. Em seu site, Gabeira lembrou que na França já
foi eleita uma transexual brasileira, naturalizada francesa, como representante
política da população daquele país.
Em 21/09/2004, o programa SuperPop da RedeTV, comandado por Luciana
Gimenez, também discorreu sobre a falta de emprego para travestis e sobre a
conseqüente opção das mesmas pela prostituição e pela pornografia, tendo em
vista que através dessas atividades têm a possibilidade de ganhar mais dinheiro
do que nas oportunidades de trabalho que se oferecem, conforme declararam
algumas das participantes do programa.
Na prostituição, muitas podem ganhar rendimentos que lhes permitem comprar
moradia, carro, entre muitos outros pertences que a maioria dos trabalhadores
não tem. Em apenas um dia, posando para fotos ou filmagens pornográficas, uma
travesti pode ganhar mais do que muitos trabalhadores ganham em um mês de árduo
trabalho, disse uma das entrevistadas. É justamente por causa desses desajustes
provocados pelos grandes empresários e por políticas econômicas governamentais
desastrosas que alguns moradores das favelas guindaram para o narcotráfico e a
criminalidade. E dessa forma muitos jovens da periferia das grandes cidades
conseguem ganhar bem mais do que média dos trabalhadores formais.
O que se pretende dizer com isso?
Pretende-se deixar claro que a discriminação, cultuada por empresários e
também por alguns políticos, não permite que sejam contratados os
preconceituosamente preteridos. Com base nessa premissa, podemos dizer que a
discriminação e o preconceito são os principais causadores das distorções
econômicas e sociais existentes no Brasil e no restante do mundo
subdesenvolvido. E assim podemos concluir também que o preconceito e a
discriminação não são somente contra os sexualmente diferentes.
Ainda no citado programa de televisão alguém perguntou: por que as
travestis não tentam uma profissão de nível superior? A verdade é que
normalmente as travestis, dada as condições adversas que enfrentam
diuturnamente, nem bem conseguem terminar o ensino básico. E o mesmo fatalmente
aconteceria caso tivessem a oportunidade de freqüentar o curso médio e as
universidades. Assim sendo, podemos supor que uma travesti dentista, por
exemplo, talvez não tivesse clientes em seu consultório particular e
provavelmente não seria aceita como empregada em clínicas odontológicas.
O preconceito não é exatamente porque possa ser homossexual, mas sim
porque usa roupas e formas femininas. Não é exatamente uma discriminação às
mulheres, mas ao novo gênero sexual daquele ser travestido. Os meninos gays são
alvos muitas vezes de gozações, mas não sofrem ostensiva discriminação tal como
acontece com os travestidos. Algo parecido declarou uma das travestis
entrevistadas.
O dia a dia nos mostra que há preconceito inclusive entre os diversos
grupos de diferentes. E essa mentalidade preconceituosa e discriminatória
precisa ser mudada primeiramente nestes.
No mês de agosto
de 2004 surgiu no BCC uma questão interessante: uma das
associadas vive com um gay e é importante salientar que os gays geralmente
gostam de homens ativos ou passivos, mas apenas vestidos como homens. Segundo
declarou nossa associada, essa relação pode terminar simplesmente porque seu
companheiro não admite que ela vista as roupas femininas que tanto adora,
porque, como toda crossdresser, se sente bem em ser ou estar como uma mulher.
Para um bom entendimento e para que a relação se perpetue é preciso haver
compreensão. Por isso podemos acreditar que o preconceito é muito mais grave
quando é cultuado pelos próprios sexualmente diferentes. Se assim acontece,
pergunta-se: como pedir ou exigir a aceitação dos demais segmentos da
sociedade?
As travestis que, por necessidade de sobrevivência, aderiram à
prostituição são normalmente procuradas por homens heterossexuais e bissexuais e
também por mulheres. A revista Marie Claire chegou a publicar a reportagem
intitulada “Casais Unissex” em que mostrava, além de uma de nossas colegas
crossdresser com sua S/O (Supportive Opposite), duas travestis que viviam com
mulheres. E existem muitos casos assim. Associadas do BCC, que se reuniam em São
Paulo, chegaram a conhecer uma travesti que quase sempre lá estava e que vivia
com uma mulher ciumenta e possessiva, não propriamente pelo homem que possuía,
mas sim pela mulher que tinha a seu lado, a qual presenteava com lindas peças
femininas.
As crossdressers, por falta de maior divulgação desse segmento, também
devem ser tidas como travestis. A principal diferença entre as duas categorias é
que as travestis geralmente andam cotidianamente vestidas como mulheres e as
crossdressers, não. E muitos profissionais do sexo têm se apresentado em
bate-papos eletrônicos (Chat) como crossdressers. Eis a questão: existe alguma
categoria de diferentes ou de opositores tentando colocar as crossdressers no
ról das adeptas à prostituição. E quem conhece sabe que as crossdresser são
geralmente homens bem situados que não usam roupas femininas diuturnamente para
não provocar a discriminação principalmente em seus locais de trabalho.
Diante disto, pergunta-se: O que hão de pensar as esposas de crossdressers
ao saberem que outras (falsas ou verdadeiras) estão tentando conseguir parceiros
sexuais pela Internet? Além do preconceito e da discriminação, este é um outro
grande problema a ser enfrentado.
Agradecimentos:
bccccclub.com.br
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