Comportamento

Do guarda-roupa ao bate-papo
 
A mídia internética não deixou de fora os gays e as lésbicas - ou vice-versa. Há um número significativo de chats reservados aos internautas homossexuais, com centenas - quando não milhares - de usuários agrupados em dezenas de salas. Porém, a descoberta desse canal não é apenas mais outra alternativa para os que estão em paz com sua preferência sexual. Basta uma visita aos gays chats para surpreendermos militares em dia de folga, médicos em momento de calmaria no consultório, comissários de bordo no recesso do lar, executivos no escritório, adolescentes e jovens em casa aproveitando a ausência de pais e irmãos - entre outros tantos tipos que dificilmente assumiriam em público sua homossexualidade ou mesmo a simples curiosidade em relação a ela. Constatando que está resguardado pela impessoalidade do computador, pelo anonimato, pelo teclar solitário em casa ou pelo uso discretíssimo do bate-papo no ambiente de trabalho, o internauta sente-se à vontade para, enfim, atender seus desejos, satisfazer a curiosidade, realizar fantasias ou simplesmente buscar interlocutores.

Porém, o aspecto mais evidente, dentro dessas salas de bate-papo, é a exacerbação do sexo. Nos chats destinados a outros gêneros de opção sexual, contudo, ele se repete com a mesma intensidade, o que demonstra o alcance a que chegou a alienação afetiva gerada por nossa sociedade. Isto é, nos canais de bate-papo - tal como João Silvério Trevisan, na revista República de agosto de 1998, diagnosticou para os ambientes do “meio” - a principal moeda de troca é o corpo, muitas vezes em detrimento dos afetos.

A hipervalorização ou exploração visual das formas corporais e do apelo erótico é recurso largamente empregado pela publicidade em geral e pelos meios de comunicação de massa em particular. Trata-se de uma associação tão sutil que somos levados a ignorá-la, assumindo como natural o que é artefato. A operação aparentemente tão inevitável de juntar um frasco de perfume a uma femme fatale ou de exibir uma cueca vestida no corpo de um atleta é produzida pela publicidade - e não algo próprio desses objetos. Estes, se fossem apresentados apenas como as coisas que são, dificilmente cumpririam o objetivo que dão razão à sua existência numa sociedade de consumo como a nossa: são mercadorias com cuja venda seus fabricantes têm (às vezes astronômicos) lucros. Isto sem falar nas novelas, nos programas televisivos como o Domingão do Faustão e o de Gugu Liberato e nas revistas as mais diversas - e não somente as ditas “eróticas”. Basta observar a maneira e a freqüência com que Veja, por exemplo, trata os assuntos relativos à “boa forma”.

Esse bombardeamento diário de erotismo é, possivelmente, uma das explicações para a exacerbação sexual que viceja nos diversos canais de bate-papo. Esquisofrenicamente banalizada pela mídia e glamourizada pela publicidade num mundo reprimido e repressor, a sexualidade só pode assumir proporções hipertrofiadas quando encontra espaços para a extravasação de seus estímulos. Não deveria causar espanto e muito menos condenação, pois, o fato de um homossexual - “assumido” ou de dentro de seu “guarda-roupa” - entrar no chat movido principal ou até exclusivamente pela expectativa de encontrar um homem com as formas de Edmundo, o feroz jogador de futebol. É assim que fomos sexualmente educados.
 

*Joaci Pereira Furtado, doutor em história social pela Universidade de São Paulo, é autor de Uma república de leitores: história e memória na recepção das Cartas chilenas (1845-1989) (Prêmio Moinho Santista Juventude 1996, Prêmio Jabuti 1998).


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