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A mentira é uma
forma de defesa que o gay usa para não enfrentar a hostilidade da família e dos
amigos (diga-se "sociedade"). Desde que se descobre diferente dessa sociedade e
com desejos opostos aos de seus amiguinhos, o gay começa a se retrair e a
mascarar os seus sentimentos.
No início da
descoberta de sua sexualidade, nem sempre se dá conta de que está na contra-mão
dos sentimentos, amando ou desejando um outro igual; por ser tão natural o que
sente e nutre pelos semelhantes, ele não percebe que é diferente dos demais.
No
entanto, quando essa consciência da diferença começa a despontar, o gay muitas
vezes entra em conflito, já que a maioria dos seus amigos têm histórias
diferentes da sua para relatar. Ou seja, enquanto seus amiguinhos relatam fatos
ou fantasias relacionadas ao sexo oposto, o gay se esconde atrás de fantasias
mais bem elaboradas, para se igualar aos pares do grupo. E aí começa a mentira,
a dizer que está namorando ou que está apaixonado por alguém do sexo oposto
também.
A
necessidade de ser aceito no grupo é muito mais forte do que uma mentirinha sem
maiores consequências. Mas o rosário de mentiras não vai parar por aí.
Da
atração sexual à ação é uma questão de tempo. Mas existem gays que nunca chegam
a ter uma relação sexual real. Muitos se embrenham nos labirintos mentais,
chegando mesmo à loucura e à insanidade; outros se jogam mesmo na "putaria" e
partem para o sexo lascivo, sem limites, promíscuo; outros, ainda, sonham com um
parceiro (a) como aqueles dos contos de fadas e desejam um casamento e uma vida
cor-de- rosa; mas há também os mais equilibrados que preferem uma vida mais
convencional, ou seja, trabalho, sexo, diversão, namoro, estudo,
etc.
O foco de nossa
discussão é a mentira, e como tal, devemos aqui não deixar que as influências de
temas ou subtemas mais interessantes e profundos venham a tomar a dianteira.
Pois bem; escondendo os sentimentos, até mesmo de si mesmo, o gay acaba
enveredando por uma teia de labirintos, por um complexo de histórias e fantasias
que ele mesmo cria, a fim de camuflar e de esconder seus verdadeiros
sentimentos. Dessa forma, acaba, muitas vezes, criando várias máscaras para sua
vida inteira, e nem sempre consegue se desvencilhar dessas máscaras, mesmo
porque ele próprio, o gay, passa a acreditar que a personagem que ele criou é
sua própria personalidade... É o caso de dupla, tripla ou até quádrupla
personalidade! Durma-se com um barulho desses.
Conheço amigos
que inventaram histórias maravilhosas sobre si mesmos. Um deles me declarou,
veementemente, que era britânico, nascido no condado de York Shire, sul do Reino
Unido da Grã-Bretânha; que ele tinha vindo ao Brasil para fazer intercâmbio
cultural e que os seus pais verdadeiros eram na verdade o casal que lhe aceitou
no programa de intercâmbio cultural. Essa estória se tornou de tal forma real em
sua cabeça, que ele convencia a todos de que era essa a sua verdadeira origem.
E até hoje, mesmo
depois que eu descobri a sua verdadeira história, há amigos meus que não foram
devidamente esclarecidos e que ainda acreditam na estória primitiva.
Um outro amigo me
contou suas experiências de viagens pelo Brasil a fora, especialmente pelo
sudeste e sul do país, mas tempos depois foi desmascarado: não conhecia nem
mesmo a região metropolitana de Salvador.
Muitas vezes essa
questão da mentira é apenas uma questão de personalidade e de caráter. Ninguém
mente só porque é gay e nem todo hetero é um poço de verdades. A mentira ou a
omissão muitas vezes é necessária, por uma questão de defesa ou conveniência.
Mas em relação aos gays, devido ao fato de que muitos deles precisem viver uma
dupla vida, se escondendo dentro do armário, se casando e tendo filhos, virando
padres e freiras, etc e tal, a mentira passa a ser uma marca muito forte, e nem
sempre as pessoas em geral compreendem a mentira do gay como uma questão
psicológica ou de auto-defesa, achando que se trata de uma questão genética e de
origem na sexualidade.
Na verdade se trata apenas de uma questão de caráter
mesmo. Há gays mentirosos, como há heterossexuais mais mentirosos ainda. Todos
somos iguais, até mesmo quando mentimos.
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