Cansamos de ouvir, desde que nascemos, que a única
coisa certa nesta vida é a morte. Do mesmo modo, cansamos de ouvir a reação das
pessoas, e até a nossa, diante da morte do outro amado: “não acredito! Isso não
pode ter acontecido!”.
É o conflito existencial indissolúvel gritando de
alma em alma... É a charada tragicômica da condição humana; a revelação
escancarada de nossa mais absoluta limitação. E ainda assim, insistimos em negar
o inegável!
Quando comecei a refletir sobre essa finitude, achando
interessante o tom poético que acompanha o final do show de cada um, cheguei a
pensar que bastaria encararmos a última cena do espetáculo como o grande ato e
tudo pareceria perfeitamente compreensível e facilmente
assimilável.
Entretanto, esse pensamento logo se mostrou ineficaz quando
entendi que a dor é por causa do fim do outro e não do nosso. Ou não? Não! Claro
que não! Afinal, cada vez que a cortina de alguém se fecha, as bandas da nossa
se aproximam um tantinho mais, sem que eu ou você percebamos que a morte pode
ter sido dele, mas a despedida é pessoal. Eu de mim; você de
você.
Depois, pareceu-me também que aceitar o fim assim, como se nele
houvesse apenas beleza, mistério e poesia, seria ignorar a sádica presença da
morte durante todos os dias de nossa vida: morremos aos poucos, e não há como
evitar!
Melhor então aceitar não o fato de que o show acaba, mas o
conflito que pulsa nele. E a partir daí, ciente de que viver nunca é um ensaio e
que, portanto, contém em si estréia e encerramento, possamos experimentar,
enfim, a essência. Este é o único motivo para que termine; caso contrário, tudo
não terá passado de um estúpido desperdício.
Fica-me a impressão de que
só desperdiçamos quando não aceitamos o conflito. A morte (assim como a vida) é
trágica e linda. É fim e luz. É saudade e esperança. É a prova cruel e mágica de
que somos finitos e isso muda tudo. Embute no agora uma urgência que nos
salva.
Mas não porque devêssemos viver como se não houvesse amanhã. Seria
vazio demais viver sem esta chance. Pode ser mesmo que não haja amanhã e isso
precisa estar previsto especialmente por causa dos que amamos; mas pode ser que
haja... e, assim, talvez seja melhor acreditar que o hoje é urgente tanto quanto
será o amanhã, se houver. O segredo é um dia de cada vez, para que seja sempre
hoje, sempre presente, tão idílico quanto o fim.
E para que a esperança
no amanhã seja efetiva, ainda que ele não chegue para mim ou para você, é
preciso que nos permitamos: o conflito precisa pulsar, o espetáculo precisa
acontecer e a essência haverá de ficar, de algum jeito lindo, numa entrelinha do
show de nossos amados...
Porque é por causa desta possibilidade,
sobretudo, que o fim é indispensável... e que sem ele perderíamos o desejo
genuíno de encontrar algum sentido maior à arte de existir, ainda que seja
depois do espetáculo terminar...
Inspirado no “fim” de Luciano
Pavarotti – 06/09/07.
- Sobre
a colunista
Rosana Braga é
Escritora, Jornalista e Consultora em Relacionamentos Palestrante e Autora
dos livros "Alma Gêmea - Segredos de um Encontro" e "Amor - sem regras para
viver", entre outros. www.rosanabraga.com.br e Comunidade no
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