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Segundo o Aurélio, leviano é um
adjetivo e significa: “que julga ou procede irrefletidamente; precipitado,
inconsiderado, imprudente. Sem seriedade, inconstante”.
Eu começaria lançando um
questionamento íntimo e pessoal: quem, em toda a sua vida, nunca agiu de modo
irrefletido, nunca foi precipitado ou imprudente? Quem, de modo algum, jamais,
agiu sem seriedade ou foi inconstante?!?
Creio que, cada qual em seu nível
de consciência, todos nós já fomos levianos alguma vez na vida! Portanto,
deveria se tratar apenas de mais um adjetivo que caracteriza nossa condição de
imperfeitos!
No entanto, o que me parece é que a
leviandade passou a ser a base de muitas atitudes e recorrentes escolhas,
especialmente aquelas que ganham destaque na mídia, seja de que modo for – para
o bem ou para o mal.
Assim, já não amamos ou odiamos
pelo que realmente somos ou baseados naquilo em que realmente acreditamos. Já
nem sabemos mais quais são os valores que nos guiam, as verdades que nos
conduzem. Perdemos o bom senso, a noção de limite e a capacidade de
crítica.
Do mesmo modo que elegemos um “zé
ninguém” como celebridade ou passamos a admirar e respeitar uma “maria vai com
as outras” como ditadora de um estilo ou de uma teoria qualquer, também dizemos
que amamos para todo sempre um “fulano” que nem sabemos quem é... que acabamos
de conhecer ou sequer tivemos essa oportunidade. Amamos virtualmente e tudo
bem!
Neste ritmo, vamos apostando em
sentimentos que não existem, que não têm raízes. Gente! Sentimentos precisam ser
cultivados, nutridos e considerados como algo muito importante – porque são
muito importantes! E o que é importante carece de dedicação, delicadeza,
intensidade, tempo... Carece de troca, partilha, disponibilidade, experiências
em comum... É o exercício do sentir que torna real o sentimento. Senão, tudo não
passará de leviandades!
E porque temos abandonado nossas
referências sobre o que seja sentir de verdade, terminamos acreditando que temos
muito mais direitos e muito menos deveres do que deveríamos nessas relações
inconsistentes que insistimos em sustentar. Temos nos comportado como
megalomaníacos quando, de fato, estamos cada dia mais vazios.
E toda vez que nos esvaziamos do
que poderia ser criativo, produtivo e transformador, chegamos mais perto das
tragédias e da insanidade, das ações impulsivas e das escolhas desesperadas...
Ou seja, caímos em nossas próprias armadilhas e nem
percebemos.
Sabe qual é a reação das pessoas
que assistem a nossa queda? A mesma que a nossa diante da queda do outro: nos
achamos os donos verdade! Acusamos, apontamos o dedo, julgamos, condenamos,
massacramos, comportamo-nos tão monstruosa e indignamente quanto os mais
terríveis levianos. E nos chamamos de justiceiros...
Quanta falta de humanidade de todas
as partes: de quem comete a insanidade e de quem aponta o dedo como se fosse
perfeito. Quanta falta de referência: nem Jesus, nem Buda, nem Madre Tereza, nem
Dalai Lama, nem nenhum outro grande Mestre jamais defendeu o disparo da primeira
pedra. Pelo contrário, todos eles pregaram a compaixão, o perdão e a lembrança
de que somos todos iguais, sem o direito de julgar o outro.
E o que temos feito?!?
Leviandades... nada mais que leviandades... maiores, menores, estrondosas,
imperceptíveis... não importa o tamanho... temos cometido inúmeras leviandades e
continuamos nos considerando os melhores, os mais corretos, os mais repletos de
razões.
Neste momento e de hoje em diante,
quero apenas olhar para o meu próprio dedo e – mais do que justiça – pedir
piedade, porque é disso que todos nós estamos precisando! |