Aposto que você completou a frase, ainda que
mentalmente: “... ouve o que não quer!”. Afinal, é para isso que servem os ditos
populares – para nos fazer crer neles como verdades absolutas. Mas
será?!?
Em alguns casos, certamente vamos ouvir o que não queremos ao
falarmos o que queremos, mas em outros, certamente poderemos ouvir o que
queremos. Portanto, a frase mais certa seria: “Quem fala o que quer, ouve o que
o outro quer” e ponto. Simples assim, óbvia e justa assim!
O problema é
que, por não suportarmos a idéia de que o outro pode nos falar o que não
queremos ouvir, preferimos nem dizer o que queremos. Ou ainda, para não darmos o
direito ao outro de fazer o que ele quiser, muitas vezes deixamos de fazer o que
temos vontade.
Quem nunca ouviu alguém dizer algo do tipo “Eu não saio
com meus amigos porque senão ele vai se achar no direito de sair também!”. Ou
algo assim “Mas e se eu disser que quero passar o final de semana com ela e ela
me disser que prefere viajar com os pais dela?”. E por aí vai...
O mundo
da imaginação rola solto e ninguém se expõe, ninguém se atreve a ser autêntico,
a bancar seus desejos e “pagar pra ver” quais são os desejos do outro.
Um
amigo meu brigou com a esposa (e quem já dividiu a cama com alguém, sabe: quando
um casal briga, o espaço entre um e outro se torna tão grande que na cama onde
os dois dormem passa a caber mais umas três pessoas...) e daí ele me disse:
“Poxa, eu fiquei com uma vontade danada de abraçá-la durante a noite!”.
E
eu: “Ué, e por que não abraçou?”. Ao que ele rapidamente se defendeu: “Ah, não!
E se ela não quisesse? Ou se ela ficasse achando que, só por isso, estou
aceitando que estou errado?”.
Mas eu insisti: “Mas se ela não quisesse,
caberia a ela que se manifestasse e demonstrasse o que queria. Além do mais, se
ela vai achar isso ou aquilo por conta da sua vontade, é problema dela e não
seu! Os desejos dela são dela e os seus, são seus. Enquanto vocês ficam
imaginando o que o outro pode pensar ou fazer, ninguém revela o que realmente
está sentindo ou desejando. Por que você simplesmente não faz a sua parte e
deixa que ela faça a dela pra ver o que acontece?”.
Ele ficou me olhando,
pensativo, com uma expressão um tanto confusa, como quem – de repente – se vê
diante de uma nova possibilidade; mas logo depois voltou a se defender: “Ah,
não! Prefiro ficar na minha a levar um fora!”. E eu, pretensiosamente, traduzi:
“Quer dizer, então, que você prefere não fazer o que está com vontade só para
não correr o risco de descobrir que a vontade dela não é igual a sua? E mais:
prefere se dar por vencido a arriscar ter seu abraço retribuído?”.
Ele
riu, um tanto perturbado com minhas indagações, e nada mais falou. Ficamos em
silêncio, cada qual com suas reflexões... mas estou certa de que, da próxima
vez, ele vai pensar melhor se realmente deve abdicar de seus desejos por medo do
desejo do outro.
Sinceramente, eu sei que não é nada fácil ser rejeitado
ou perceber que o que a gente quer não vai ser possível porque o outro não quer,
mas também me sinto cada dia mais inteira e satisfeita comigo mesma na medida em
que consigo assimilar que sou responsável tanto por aquilo que faço quanto por
aquilo que deixo de fazer, especialmente quando o assunto passa pelo meu
coração...
E assim, mesmo sentindo medo, tenho preferido arriscar, fazer
a minha parte e deixar que o outro faça o que quiser fazer, pense o que quiser
pensar e sinta o que puder sentir.
Porque só deste modo estarei vivendo
as relações com todo o meu ser, amando como eu realmente quero amar, sem que
minhas fantasias sobre o que ele pensa, sente e quer conduzam os meus
desejos.
O resultado? Tem sido bem mais positivo do que eu poderia supor,
felizmente!
-
Rosana Braga é
Escritora, Jornalista e Consultora em Relacionamentos Palestrante e Autora
dos livros "Alma Gêmea - Segredos de um Encontro" e "Amor - sem regras para
viver", entre outros. www.rosanabraga.com.br e Comunidade no
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