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"...isso me parece estranho, ser amada apaixonadamente
dessa maneira feminina e orgânica por duas pessoas: Védrine (...) et
Sorokine..." Lettres à Sartre,
1939. A publicação
do Diário de Guerra de Simone de Beauvoir, de suas Cartas a
Sartre e de Memórias de uma Moça Malcomportada, de Bianca Lamblin,
possibilitaram descortinar um curioso silêncio da autora de O Segundo
Sexo, que celebra este ano (1999) seu cinqüentenário: sua relação íntima
com o lesbianismo.
Agora sabe-se que Simone de Beauvoir teve relações carnais com mulheres,
“as paixões or-gânicas”, vividas geralmente com suas antigas alunas. Sabe-se
também que sua vida amorosa foi estruturada ao redor de um trio, e não de um
casal. Um trio que compreendia de um lado um “amor necessário”, com Sartre; e o
que ela chamava de “amores contingentes”, com mulheres. A questão que se coloca
depois dessas revelações póstumas é: por que a filósofa existencialista escondeu
sua “bissexualidade” já que ela colocava a verdade como fundamento de sua moral
de autenticidade?
Deve-se ver nisso uma reação à homofobia da sociedade francesa, que a
marcara desde sua adolescência através da morte de sua amiga Zaza, com quem ela
experimentara “emoções não-codificadas”?
Durante a guerra, Simone de Beauvoir foi igualmente vítima da ideologia
vichyssoise do TPF (Trabalho-Família-Pátria), já que foi suspensa da
Educação Nacional depois da queixa da mãe de uma de suas alunas por “corrupção
de menor”. Se ela menciona a homofobia em O Segundo Sexo, apresentando
as lésbicas como “aquelas que escolhem caminhos condenados”, percebe-se,
entretanto que ela não faz aí uma análise, contentando-se em retificar as falsas
certezas da psicanálise sobre as lésbicas “viris” e “femininas”, enquadrando em
sua reabilitação da “voluptuosidade lésbica” sérias restrições, uma vez que ela
praticamente conclui o capítulo dizendo: “Nada pode dar pior impressão de
estreiteza de espírito e de mutilação que esses clãs de mulheres
libertas”.
É
possível observar como a filósofa Simone de Beauvoir não estava pronta a se
reconhecer como lésbica. Tudo nela se rebela a essa idéia, a começar por sua
concepção da emancipação feminina que é para ela, a princípio, uma aventura
intelectual levada pela fraternidade masculina e consolidada pela independência
econômica.
Mesmo durante os anos MLF (Mouvement de Libération des Femmes —
Movimento de Libertação das Mulheres), em que as lésbicas enfim tiveram voz
pública, Simone de Beauvoir jamais disse uma palavra de apoio, preferindo se
engajar no combate a favor do aborto (que não lhe concernia pessoalmente, se
levarmos em conta suas memórias), tanto quanto a liberação homossexual. Eu a
encontrei várias vezes nesta época, num grupo de historiadores que preparava
emissões televisivas que deveriam ir ao ar em Sartre dans le Siècle, e
jamais conseguimos nos falar, ainda que eu a tenha questionado sobre Violette
Leduc no momento em que começava minha tese sobre amor entre
mulheres.
Este
silêncio sobre a homossexualidade tem uma razão, e se explica a meu ver, bem
mais por suas idéias filosóficas que por um medo qualquer da “canalhice
francesa”. O materialismo existencial, que fundamenta sua análise da opressão
das mulheres, bloqueia toda a ancoragem do amor lésbico numa dinâmica
emancipadora. Pois se a mulher é o Outro, se a feminilidade é socialmente
construída — um mito, demonstra ela em O Segundo Sexo —, se enfim o
amor é uma alienação livremente consentida, como uma mulher poderia construir
sua identidade de sujeito livre através de um amor por outra mulher? É
impossível, e compreende-se porque tal visão da mulher “relativa” não pode
desembocar numa análise da homofobia. Seria preciso que “a essência” não
sucedesse à existência, que ela fosse ao menos co-originária para que o desejo
homossexual fosse incluído como uma das dimensões da identidade
humana.
A
frase que inicia o capítulo de O Segundo Sexo sobre o lesbianismo é
reveladora desta posição de identidade insustentável que teve Beauvoir do
pós-guerra até sua morte em 1986. “... a mulher sempre será frustrada como
indivíduo ativo”, escreve ela. “Não é o órgão da possessão que ela inveja no
homem, mas sua presa”. Eis as palavras extremamente reveladoras de sua relação
com a mulher desejada e o mundo masculino. A mulher é uma “presa” sexual, um
objeto de consumo, de devoração. As metáforas alimentares surgem de sua pena
quando ela evoca a noite passada com uma de suas jovens amantes, como em 1939,
em que ela escreve: “Noite patética — apaixonada, repugnante como foie
gras...”.
Pode-se imaginar em que contradições Simone de Beauvoir se debatia. Uma
avidez existencial sem precedentes que incluía a volúpia feminina, uma paixão
absurda por Sartre que lhe impôs amantes que ela “dividia” com ele. Enfim, um
desgosto pela feminilidade concebida como puro produto da dominação não lhe
ajudou em nada a abandonar o silêncio de sua práxis lésbica. Mas é talvez ainda
mais seu sistema filosófico que impôs obstáculos, tanto é verdade que o Espírito
é a verdadeira morada de nossas “emoções não-codificadas” Marie-Jo Bonnet | 27.04.1999 publicado originalmente em Ex
Aequo n°27 | extraído (e traduzido) de Le Seminaire Gai
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