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Viver
com AÍDS
- O
perigo mora ao seu redor
- 25
Perguntas e 5 minutos do seu tempo para você
ler as respostas e descobrir se, as doenças
sexualmente transmissiveis estão bem longe de
você, ou muito perto e você nem imagina.
- @Por Ricardo
Tapajós
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Há correntes de e-mails na Internet que dizem que a cura da
Aids já foi descoberta mas o governo dos Estados Unidos segura essa informação.
Isso pode ser verdade?
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- Não. A medicina nunca conseguiu curar um vírus. Nem o da vírus da Aids nem
nenhum outro. Quem cura os vírus na gente é o nosso sistema imunológico. O vírus
da herpes é um exemplo disso. As pessoas têm, a gente sabe tratar, mas ele está
sempre latente no organismo. Se alguém soubesse a cura da Aids, seria o primeiro
vírus que alguém soube curar. Mas ainda não temos ciência para curar nem para
criar um vírus. Nem que a gente quisesse. Não sei de onde surgiu essa informação
sobre a cura, mas uma corrente dessas atrapalha as campanhas de prevenção, pois
a Aids está aí, ela precisa ser controlada, e um dos grandes fatores do controle
é a prevenção. Quando a gente tem de tratar alguém já é uma falha da medicina,
pois não foi possível evitar que essa pessoa pegasse a doença. E atualmente
ainda não existe um tratamento que cure a Aids.
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- AIDS E SEXO ORAL
- O sexo oral apresenta risco de contaminação com HIV tanto para quem pratica
como para quem recebe?
- A relação oral é considerada de risco para a transmissão do HIV, ou seja:
você pode pegar o HIV chupando e sendo chupado. E também não interessa o que
você está chupando ou o que está sendo chupado, quer dizer, o sexo das pessoas
envolvidas. Qualquer contato de mucosa com mucosa, principalmente se tiver
secreção sexual, ou líquido vaginal, esperma ou aquele líquido que vem antes do
esperma, pode transmitir o HIV, pois todas essas secreções são contaminadas com
HIV se essa pessoa tiver o vírus. A transmissão acontece pelo sexo oral também.
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- É verdade que a contaminação só acontece se a pessoa tiver uma feridinha na
boca?
- Não. Não existe nenhum trabalho mostrando que pessoas infectadas por sexo
oral tinham ou não uma ferida na boca antes do contágio. Você é capaz de olhar
na sua boca agora e me dizer se tem ou não uma feridinha? Isso não é possível.
Não é preciso ter uma ferida para se contagiar. As mucosas têm uma capacidade
muito grande de absorção, se houver um vírus, pode haver contágio. Eu POSSO
GARANTIR que se o esperma entrar em contato com a sua PELE, você NÃO vai se
infectar. Mas se o vírus entrar em contato com a mucosa da sua BOCA, eu NÃO
POSSO GARANTIR que você vá se infectar. Portanto, SEXO ORAL SEM CAMISINHA NÃO É
SEGURO.
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- O que aconteceu com a hipótese de que o suco gástrico matava o vírus do
HIV?
- O vírus do HIV tem uma capa de gordura em torno dele. Isso faz com que seja
muito susceptível ao meio que o cerca. Enzimas digestivas podem inativar o
vírus. Mas olha o tamanho do caminho que o vírus tem que andar da sua boca até o
estômago! Em qualquer um dos pontos desse percurso o HIV pode entrar pela mucosa
e infectar.
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- Quer dizer que sexo oral sem camisinha não pode fazer?
- Se você quer fazer sexo oral, você tem que usar preservativo. Se você quer
fazer sexo oral sem camisinha, você não pode fazer sexo com quem você quer, com
quem você encontra hoje à noite. Você precisa ter um parceiro fixo, em quem você
confia, e mesmo assim ainda está correndo risco.
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- Qualquer camisinha serve para fazer sexo oral?
- Qualquer camisinha boa. Mesmo as lubrificadas, a menos que você não goste do
gosto. O mais importante é que, depois de utilizar uma camisinha para sexo oral,
não reutilizá-la para penetração, pois a saliva e os dentes podem estragar a
borracha. Toda vez que você fizer sexo oral com camisinha, antes de fazer uma
penetração troque o preservativo por um novo. Não pode usar o preservativo com
saliva. Só se deve utilizar lubrificantes para penetração à base de água, que
podem ser comprados na farmácia, junto com a camisinha. Na dúvida, passe um
pouquinho na mão e coloque debaixo d'água. Se sair com água, pode usar. NÃO
UTILIZE margarina, saliva, creme nívea ou óleo como lubrificante.
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- FORMAS DE CONTÁGIO DO HIV
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- Existe uma escala de perigo nas relações sexuais? Sexo anal é mais perigoso
do que sexo oral, etc?
- Ser penetrado envolve um risco maior -na vagina ou no ânus-, em segundo lugar
vem penetrar, e em terceiro lugar as relações orais -alguns livros até colocam
as relações orais junto com penetrar, no mesmo grau de hierarquia. O fato é que
nenhuma dessas relações é isenta de risco. Se não é isenta de risco, não dá para
recomendar. As pessoas acham que sexo oral é sexo seguro e preferem não fazer
sexo com penetração, para não correr risco, e fazem sexo oral sem camisinha.
Isto é uma desinformação. É mais seguro fazer sexo com penetração e com
camisinha, do que fazer sexo oral sem proteção. Ou seja, transem com camisinha
sempre.
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- Há mais risco de transmissão de Aids quando a mulher está
menstruada?
- Essa pergunta é difícil de responder, pois na literatura médica há
controvérsia. Já apareceram provas cabais de que a mulher em período menstrual
aumenta a transmissão de doenças como o HIV, e já apareceram trabalhos dizendo
que não aumenta. Então essa informação é controversa. E toda vez que uma
informação é controversa, a gente é obrigado a achar o pior. Ou seja, é obrigado
a achar que aumenta. É preciso se proteger para fazer sexo nesse período.
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- AIDS E COMPORTAMENTO SEXUAL
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- É possível pegar HIV tendo apenas um parceiro sexual?
- Você pode pegar HIV sendo monogâmico (tendo apenas um parceiro), basta seu
parceiro se infectar, usar drogas... Isso acontece. Mulheres monogâmicas pegam
HIV, meninas pegam com seu primeiro namorado. Ser monogâmico não protege contra
o HIV.
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- Pessoas mais certinhas estão livres do HIV?
- Um vírus não tem moral. Ele não reconhece a moralidade humana. Não adianta
dizer pra ele "olha, você é só de pessoas promíscuas", ou "você é uma doença só
de homossexuais", ou "você é só de pecadores". O HIV não se comporta dessa
maneira. A epidemia tem se espalhado de tal maneira, que ela atingiu todos os
segmentos da raça humana: mulheres, jovens, crianças, velhinhos, heterossexuais,
homossexuais, todo mundo. Não estou falando de uma hipótese, falo de uma
epidemia que está acontecendo. O HIV está ocupando a raça humana com o ar ocupa
os espaços de uma sala. Onde tem espaço, o HIV entra, e ele não tem moral.
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- Tem gente que diz que o homem heterossexual não corre o risco de ser
infectado por uma mulher. É verdade?
- Isso é uma grande besteira. A mulher passa o HIV para o homem, sim. O maior
índice de infecção por HIV no mundo está na África Negra, onde para cada homem
infectado há uma mulher infectada. Não dá para imaginar que todos os homens
fizeram uma orgia homossexual e depois foram para casa contaminar suas mulheres!
Não foi assim. A mulher passa o vírus para o homem. Aliás, essa é uma maneira
pela qual a epidemia persiste hoje.
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- Você acha que as mulheres são hoje um grupo muito vulnerável à infecção pelo
HIV?
- As mulheres são um grupo muito vulnerável. A gente não usa mais a expressão
"grupo de risco", mas se fosse para usar, eu diria que hoje, no Brasil, as
mulheres jovens são o "grupo de risco". São as meninas que estão pegando o HIV.
"Vulnerável" é uma palavra muito boa para definir esse grupo. Aparentemente, os
homens conseguem se safar melhor das situações de risco do que as mulheres.
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- Por que?
- As pessoas têm na cabeça uma idéia errada de que usar camisinha é coisa de
prostituta e quem não é prostituta não precisa usar. Esses meninos e meninas
pensam que camisinha é só com prostituta porque receberam essas idéias dos pais,
pessoas que faziam sexo numa outra época. Mudou de época! Eu penso que pode
chegar um dia em que alguém vai dizer: "Nossa, pai! Você transava sem camisinha?
Que nojo!"
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- Você acha importante uma pessoa saber se está infectada ou
não?
- Saber-se soropositivo (infectado por HIV) ou saber-se soronegativo (não
infectado), implica em tomar decisões na vida e ter atitudes que não são
necessariamente as mesmas de quando você ignora seu estado. Os adultos, de uma
maneira geral, têm uma dificuldade grande de se saber soropositivos ou não.
Talvez eles estejam passando essa dificuldade para seus filhos, dizendo sem
palavras, por atitudes, que é melhor não saber. O que não procede. Medicamente,
é sempre melhor saber.
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- Para um casal que tem uma relação duradoura, pretende ter um filho, que
testes devem ser feitos antes de abandonar o uso da camisinha?
- O exame que dá melhores resultados, ainda é o exame físico. Anamnese e exame
físico, ou seja, sentar com médico e conversar, dizer o que fez, o que não fez,
fazer um exame físico -esse é o exame que melhor consegue detectar pequenas
coisas erradas. Este é o que eu recomendo em primeiro lugar. O homem pode
procurar um urologista, um clínico geral, o que ele achar melhor. Para a mulher,
o mais indicado é um ginecologista, pois existe um exame interno, o ambiente do
exame ginecológico é diferente. Afora isso, existem exames de sangue que podem
ser feitos e que vão testar todas essas doenças sexualmente transmissíveis e que
podem ser detectadas por um exame de sangue: sífilis, hepatite B, HIV... Para um
pré-natal há outros exames também, para detectar outras doenças que não são
sexualmente transmissíveis mas podem ter implicações durante a gravidez:
toxoplasmose, rubéola e outras doenças.
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- DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS
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- Desde quando existem as doenças sexualmente transmissíveis?
- Cinqüenta anos atrás já existiam todas as doenças sexualmente transmissíveis
(DST). A sífilis era uma das mais importantes e existe desde a antigüidade
clássica (antes de Cristo), e durante toda a Idade Média. DSTs existem há muito
tempo, com grandes epidemias. Morria-se de sífilis antes de existir um
tratamento. A Aids não é uma doença nova -a epidemia é nova. A Aids já existia
há um bocado de tempo, mas apenas na África Negra. Agora ela se espalhou pelo
mundo. DSTs existem e é preciso se precaver contra elas. E para se precaver não
é preciso deixar de ter prazer e fazer sexo, mas é preciso aprender a fazer sexo
num mundo em que existem essas doenças, e algumas delas podem matar, como a
Aids.
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- Como são transmitidos o HPV (condiloma), sífilis e gonorréia?
- Para pegar HPV, sífilis, cancróide e gonorréia basta o contato genital. Não
precisa nem penetrar, nem ejacular. Essas doenças podem ser pegas também na
garganta, por sexo oral. São doenças mais fáceis de pegar do que o HIV. Alguns
meninos dizem que primeiro penetram e na hora de gozar põem a camisinha. Só com
isso já dá pra pegar todas essas doenças.
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- O que se deve fazer quando alguém constata que está com alguma doença
sexualmente transmissível?
- A medicina é sempre melhor quando é preventiva. Quando a gente tem de curar
uma doença é porque já falhou, não evitando que a pessoa pegasse a doença. É
sempre melhor promover a saúde do que tratar a doença. Eu sempre recomendo que
as pessoas vão ao médico quando não estão doentes, para não ficar doentes. Isso
implica ir ao médico com uma certa freqüência, que varia e pode ser decidida com
seu médico. A mulher deve ir ao ginecologista assim que ela tenha a primeira
menstruação. O menino deve também ir ao médico cedo, e deve tirar suas dúvidas
com ele. Ele deve decidir se quer ir ao pediatra, ao médico de família, a um
clínico geral, a um urologista, ou a um infectologista. Qualquer um desses
médicos vai atendê-lo bem. Quando alguém pega uma doença sexualmente
transmissível, precisa ir ao médico. Não pode tomar o remédio que o amigo tomou,
porque os remédios às vezes fazem mal, causam efeitos colaterais, e às vezes
mascaram a doença (escondem os sintomas sem de fato curar) e acabam provocando
uma complicação pior do que a doença em si. É bom lembrar que doença sexualmente
transmissível é DOENÇA, não é julgamento moral, atestado de promiscuidade ou
prostituição. É uma doença e deve ser tratada.
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- Quem tem uma doença sexualmente transmissível deve avisar seus parceiros que
está doente?
- É uma responsabilidade e um dever. em alguns caso o médico tem obrigação de
fazer essa notificação -mas só em alguns casos. É claro que nenhum médico vai
fazer isso por terrorismo. Geralmente a gente pede ao paciente para que traga o
parceiro ou a parceira para que a gente possa conversar junto. E às vezes é
necessário fazer isso porque se você trata de uma DST em alguém, e não trata o
parceiro, a pessoa vai se reinfectar (pegar a doença novamente). Daí o
tratamento não adianta nada. Doenças sexualmente transmissíveis são um problema
de duas pessoas, não de uma. Às vezes mais de duas...
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- Jovens devem contar para os pais que têm uma doença sexualmente
transmissível?
- Pai e mãe às vezes ajudam muito. Às vezes, não. Isso depende do menino e da
menina. Mas se um jovem não consegue ir ao médico sozinho, tem que ir com pai e
com a mãe. Se ele consegue ir sozinho, vai. O médico não é obrigado a contar
nada para os pais. O menino e a menina podem querer segredo médico e é um
direito deles.
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- SÍFILIS
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- A sífilis é uma doença do passado?
- Não. A sífilis é uma doença muito freqüente, provocada por uma bactéria, e
ela pode não apresentar nenhum sintoma. Você pode ter sífilis achando que não
tem, e o único jeito de saber é fazer a sorologia (exame de sangue). A sífilis
não dá corrimento. A sífilis pode provocar uma ferida, geralmente sem dor, na
região genital. A sífilis tem tratamento e precisa ser tratada quando
descoberta.
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- HEPATITE B
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- Hepatite B é transmissível por sexo?
- Sim, a hepatite B é uma doença sexualmente transmissível. As pessoas não têm
medo da hepatite B mas ela pega muito mais facilmente do que o HIV. A hepaptite
B é um vírus. Ele pode causar uma hepatite bastante simples ou então uma
hepatite super severa que pode até matar. E a hepatite B, ao contrário da
hepatite A, torna-se uma doença crônica, ou seja, o vírus pode ficar dentro de
você o resto da sua vida, e se ele ficar dentro de você, ele vai "comendo" o seu
fígado. Você pode, no decorrer dos anos, desenvolver cirrose, insuficiência
hepática e até câncer de fígado. Essa doença é terrível. O controle e o
tratamento são difíceis, pega-se por via sexual e tem vacina, quer dizer,
ninguém precisa pegar, basta tomar a vacina. O HIV não tem vacina, hepatite B
tem.
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- HPV (CONDILOMA)
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- O que é o HPV?
- O HPV é um vírus chamado "papilomavírus", de transmissão sexual -ele também
pode ser transmitido de outras maneiras, por contato, mas ele é um vírus de
transmissão sexual. Há muitos tipos de HPV, e alguns estão relacionados ao
câncer, tanto no colo uterino como no pênis. Mas não é que você vai pegar o
vírus hoje e vai ter câncer amanhã. Demora. Mas existe essa possibilidade. Mas é
preciso tratar esse vírus. Outros tipos de HPV não estão ligados diretamente ao
surgimento do câncer, mas eles podem causar outros problemas, como verrugas
genitais, chamadas condilomas. No homem é mais fácil de perceber porque os
órgãos genitais são externos, na mulher às vezes não se percebe, porque a
lesãozinha está lá no colo do útero. O homem também pode ter lesões internas, na
uretra, e é por isso que quando há suspeita, a gente faz um exame interno,
chamado "peniscopia" no homem. Para a mulher o mais fácil é detectar isso no
papanicolau. Ou seja, ir ao ginecologista com freqüência pode evitar um monte de
doenças, inclusive papilomatovirose (doença provocada pelo HPV).
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- GONORRÉIA
- Como é a gonorréia?
- A gonorréia é uma doença provocada por uma bactéria. No homem ela tem como
sintoma corrimento, chamado de uretrite, e dói quando faz xixi. A mulher
freqüentemente tem uma gonorréia assintomática, ou seja, sem sintomas. Isso quer
dizer que ela pode transmitir a doença sem saber que a tem. Às vezes a gonorréia
pode entrar no útero e se espalhar pelos ovários e trompas, provocando o que se
chama de "doença inflamatória pélvica", uma doença grave que exige uso de
antibióticos e pode precisar de uma intervenção cirúrgica.
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- HERPES LABIAL E GENITAL
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- Quem tem herpes labial pode transmitir herpes aos órgãos sexuais do parceiro
ao fazer sexo oral?
- Há três vírus que provocam herpes: o vírus da herpes simples 1, da herpes
simples 2 e o da herpes zóster. Os que nos interessam são o vírus da herpes
simples 1 e o vírus da herpes simples 2. O vírus da herpes simples 1 gosta mais
da boca. O tipo 2 gosta mais da região genital. Mas eles podem trocar. Você pode
pegar o vírus 1 na região genital e pegar o vírus 2 na região bucal, basta você
fazer sexo oral desprotegido.
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- Sobre
o autor:
- Ricardo
Tapajós é chefe da UTI de doenças infecciosas do Hospital das Clínicas
- e professor da Faculdade de Medicina da USP
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