Ela virou a casaca durante a evolução, mas hoje ajuda os cientistas a entender
melhor como funciona o sistema imunológico humano. Uma proteína de defesa, que
há 4 milhões de anos protegeu os seres humanos de várias infecções, hoje mudou
de lado. Os pesquisadores descobriram que ela é uma das responsáveis pela maior
vulnerabilidade do homem ao vírus HIV, causador da Aids. Para chegar até a
molécula, os cientistas do Centro Fred Hutchinson de Pesquisa do Câncer (EUA)
seguiram uma pista só revelada há dois anos, com o fim do seqüenciamento do
genoma do chimpanzé. "Nós decidimos reconstruir um vírus de 4 milhões de
anos, exatamente porque a grande diferença entre os genomas do homem e do
chimpanzé estava relacionada com ele", disse à Folha o principal autor do
trabalho, Michael Emerman.
Dupla personalidade O chamado
retrovírus endógeno Pan troglodytes, ou PtERV1, deixou 130 cópias no genoma do
chimpanzé e nenhuma no humano. Isso significa, segundo Emerman, que há milhões
de anos esses macacos sofriam infecções causadas pelo antigo vírus e o ser
humano não. O PtERV1 pertence à mesma família do HIV. Para testar essa
hipótese, os pesquisadores decidiram reconstruir um pequeno pedaço do maquinário
genético do vírus antigo e ver como ele interagia com as células
humanas. Dito e feito: ainda hoje, o antigo vírus é barrado pelo sistema
imunológico humano, mais precisamente pela proteína duas-caras, batizada TRIM5a.
"O maior obstáculo mesmo foi reconstruir um vírus de 4 milhões de anos", disse
Emerman, que se considera militante de um novo ramo da ciência, a
paleovirologia.
Proteção obsoleta A mesma molécula útil no
passado, quando testada com vírus modernos, como o HIV, mostrou que não é tão
eficiente assim para o ser humano -muito pelo contrário. "No final, essa
resistência ao antigo vírus direcionou a evolução humana para uma maior
suscetibilidade ao HIV", explica o pesquisador americano. Tudo indica, segundo o
cientista, que a proteína estudada por ele é importante, mas ela consegue lutar
apenas contra um tipo de vírus por vez. De acordo com Emerman, essa
arqueologia viral promete revelar novas relações evolutivas importantes nos
próximos anos. "Existem vários outros tipos de vírus com essas mesmas
características que podem ser encontrados nos genomas dos primatas",
disse. Como mostrou esse primeiro estudo, publicado na revista "Science", a
resistência e a sensibilidade humana aos diversos tipos de vírus são diretamente
direcionadas por grupos de proteínas e de genes. "Eu suspeito que isso é cada
vez mais verdade. Precisamos apenas olhar mais atentamente para isso", afirma
Emerman.
- Matéria
extraída originalmente de Folha Ciência
- Texto de Eduardo Geraque
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