Viver com AÍDS

 23.06.2007- Proteína duas-caras reduz defesa humana contra HIV
 
@Por Redação
Ela virou a casaca durante a evolução, mas hoje ajuda os cientistas a entender melhor como funciona o sistema imunológico humano. Uma proteína de defesa, que há 4 milhões de anos protegeu os seres humanos de várias infecções, hoje mudou de lado. Os pesquisadores descobriram que ela é uma das responsáveis pela maior vulnerabilidade do homem ao vírus HIV, causador da Aids.
Para chegar até a molécula, os cientistas do Centro Fred Hutchinson de Pesquisa do Câncer (EUA) seguiram uma pista só revelada há dois anos, com o fim do seqüenciamento do genoma do chimpanzé.
"Nós decidimos reconstruir um vírus de 4 milhões de anos, exatamente porque a grande diferença entre os genomas do homem e do chimpanzé estava relacionada com ele", disse à Folha o principal autor do trabalho, Michael Emerman.

Dupla personalidade
O chamado retrovírus endógeno Pan troglodytes, ou PtERV1, deixou 130 cópias no genoma do chimpanzé e nenhuma no humano. Isso significa, segundo Emerman, que há milhões de anos esses macacos sofriam infecções causadas pelo antigo vírus e o ser humano não. O PtERV1 pertence à mesma família do HIV.
Para testar essa hipótese, os pesquisadores decidiram reconstruir um pequeno pedaço do maquinário genético do vírus antigo e ver como ele interagia com as células humanas.
Dito e feito: ainda hoje, o antigo vírus é barrado pelo sistema imunológico humano, mais precisamente pela proteína duas-caras, batizada TRIM5a. "O maior obstáculo mesmo foi reconstruir um vírus de 4 milhões de anos", disse Emerman, que se considera militante de um novo ramo da ciência, a paleovirologia.

Proteção obsoleta
A mesma molécula útil no passado, quando testada com vírus modernos, como o HIV, mostrou que não é tão eficiente assim para o ser humano -muito pelo contrário.
"No final, essa resistência ao antigo vírus direcionou a evolução humana para uma maior suscetibilidade ao HIV", explica o pesquisador americano. Tudo indica, segundo o cientista, que a proteína estudada por ele é importante, mas ela consegue lutar apenas contra um tipo de vírus por vez.
De acordo com Emerman, essa arqueologia viral promete revelar novas relações evolutivas importantes nos próximos anos. "Existem vários outros tipos de vírus com essas mesmas características que podem ser encontrados nos genomas dos primatas", disse.
Como mostrou esse primeiro estudo, publicado na revista "Science", a resistência e a sensibilidade humana aos diversos tipos de vírus são diretamente direcionadas por grupos de proteínas e de genes. "Eu suspeito que isso é cada vez mais verdade. Precisamos apenas olhar mais atentamente para isso", afirma Emerman.
Matéria extraída originalmente de Folha Ciência - Texto de  Eduardo Geraque
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