Viver com AIDS::::
ONGS criticam gastos do Ministério da Saúde com eventos sobre Aids que trouxe Robert Gallo ao Brasil
 
Grupos ligados à luta contra a Aids divulgaram ontem um manifesto para questionar a vinda ao Brasil do americano Robert Gallo, co-descobridor do vírus HIV, para participar de um evento patrocinado pelo Ministério da Saúde. O Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo, que reúne 170 entidades, elaborou um documento para "exigir esclarecimentos" sobre "as origens dos recursos", as empresas envolvidas e os motivos que levaram a pasta a destinar dinheiro à conferência da revista "IstoÉ Dinheiro", que teve Gallo como convidado. O manifesto foi encaminhado ao Ministério Público Federal.

O evento aconteceu no último dia 18. O Ministério da Saúde admite ter acertado uma cota de patrocínio de R$ 700 mil e que, em troca, teria direito a 16 páginas de um encarte publicitário na revista, além de espaço para seis anúncios. Nega, entretanto, ter bancado a vinda do cientista ao país.

O questionamento das ONGs foi reforçado por posições manifestadas por Gallo sobre a política brasileira de combate à Aids, além de declarações dele, que, para as entidades, ofendem os pobres.

O americano, que é diretor do Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland, recomendou ao Brasil, em entrevista à Folha, que fosse devagar com a quebra de patentes dos medicamentos usados no tratamento de portadores do vírus da Aids.

"As coisas que ele fala nos parece um discurso encomendado, que favorece a posição dos laboratórios. Ele é contra a distribuição gratuita e universal do coquetel. É no mínimo estupidez convidar alguém para falar mal do programa que desenvolve. E ainda é dinheiro público", afirma Mário Scheffer, integrante do fórum.

A mobilização das ONGs foi potencializada após entrevistas dadas por Gallo. Segundo a "Agência de Notícias da Aids", ao ser questionado sobre os acessos dos pobres aos medicamentos, ele respondeu: "Poor people, my ass! [Pessoas pobres, uma ova!]".

Gallo divulgou nota em que se diz chocado com a repercussão de suas declarações e que palavras fora de contexto levaram a falsos entendimentos. Diz ainda já ter manifestado sua impressão favorável sobre a política brasileira. O cientista nega representar a visão de qualquer governo e que não recebe dinheiro do laboratório Abbot, citado pelas ONGs.

O cientista diz que apóia o direito do Brasil de escolher as táticas que considera mais apropriadas. Gallo atribui a polêmica de suas declarações a erros de interpretação e de tradução, mas não explica quais teriam sido os erros.

A Folha tentou, sem sucesso, contatos com representantes da "IstoÉ Dinheiro" no final da tarde de ontem. A reportagem telefonou para as redações da revista em São Paulo e em Brasília, mas os jornalistas diziam não haver ninguém que pudesse falar pela "IstoÉ Dinheiro".(Da Reportagem Local/Da Sucursal de Brasília).

OUTRO LADO

MINISTÉRIO NEGA TER PATROCINADO VINDA DE CIENTISTA

O Ministério da Saúde informou ontem ter participado do "Fórum Aids: as novas descobertas e o modelo brasileiro de assistência", realizado em São Paulo, como co-patrocinador, não sendo, assim, responsável pelos gastos com a vinda do cientista Robert Gallo, co-descobridor do HIV, ao Brasil.

A pasta diz ter adquirido uma cota de patrocínio negociada pela Editora Três -apontada como a responsável pelo fórum- e, em troca, teria direito a 16 páginas de um encarte publicitário na "IstoÉ Dinheiro", além de espaço para seis anúncios, sendo três na revista e outros três na "IstoÉ".

Esse informe seria publicado na próxima edição da revista, mas a nova equipe de comunicação do ministério pediu que fosse suspenso com o objetivo de discutir o conteúdo da publicação. Está marcada uma reunião para a próxima semana, em que o assunto será tratado. Como houve mudança no comando do ministério, a nova equipe afirma não saber em que termos foi negociado o informe publicitário.

A autorização da cota de patrocínio foi dada pela equipe do então ministro Humberto Costa (PT), que deixou a pasta no dia 11. Ele foi substituído pelo peemedebista Saraiva Felipe -que, ao assumir, decidiu suspender várias medidas do antecessor.

Discórdia

Já a coordenação do Programa Nacional de DST-Aids foi contrária ao patrocínio, quando consultada, de acordo com sua assessoria. O diretor do programa nacional, Pedro Chequer, chegou a divulgar uma nota no início da semana discordando das declarações de Robert Gallo e afirmando que ele "defende claramente interesses econômicos da indústria farmacêutica". O cientista nega.

A Folha procurou na tarde de ontem representantes da equipe de Costa para comentar a autorização de co-patrocínio, mas não conseguiu localizá-los. Segundo a assessoria do Ministério da Saúde, foi autorizado o pagamento de cerca de R$ 700 mil pela cota de patrocínio do evento. Os recursos estão incluídos em gastos previstos com comunicação e com a produção de informativos e informes.

O secretário de Vigilância em Saúde, Jarbas Barbosa, participou de uma das mesas do evento representando o ministro, que estava em Salvador na segunda-feira.(Da sucursal de Brasília)

Fonte: Folha de S.Paulo  

 

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