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AIDS:::: |
- Folha
de São Paulo destaca Vacina Contra HIV
- Agência
de Noticias sobre AIDS
-
- Dois
trabalhos recentes e paralelos aumentaram as expectativas dos cientistas de que
um dia se consiga uma vacina contra o HIV, o vírus causador da Aids. Na pior das
hipóteses, quando um dia for obtida uma defesa eficaz contra o vírus, esses dois
artigos científicos certamente farão parte da bibliografia.
Um deles
mostra como é a estrutura tridimensional da chamada proteína gp120, a "chave"
molecular usada pelo parasita para invadir as células humanas e de macaco. O
outro analisa a estrutura de uma das raras armas bem-sucedidas contra o HIV, um
anticorpo "neutralizador" conhecido como 4E10.
Quando ataca o homem o
vírus se chama HIV, vírus da imunodeficiência humana na sigla em inglês; nos
macacos, é o SIV -vírus da imunodeficiência símia. A doença afeta justamente o
sistema imunológico, a defesa do organismo. Entre as vítimas estão as células
que deveriam defender o corpo, mas que têm na sua superfície uma proteína, a
CD4, que serve de fechadura perfeita para a chave gp120.
Desde 1998 se
conhece a estrutura da gp120 grudada na CD4 ("gp" significa "glicoproteína",
isto é, um misto de glicose -açúcar- com proteína). Mas não se conhecia como era
essa "chave" fora da "fechadura". Um novo estudo, publicado na semana retrasada
na revista científica "Nature" (www.nature.com), mostrou que a gp120 não-ligada
tem uma forma bem diferente de quando está ligada ao seu alvo celular humano. E
isso dá uma inédita pista de como atacá-la.
Colete à prova de
bala
O HIV se defende por meio de uma membrana protetora em torno do
seu material genético, como se fosse o colete à prova de bala de um soldado.
Mas, para infectar uma célula, ele precisa de múltiplos braços, saliências que
perfuram a membrana e que têm na base a glicoproteína gp41 e na ponta a gp120.
Três gp41 associadas com três gp120 formam uma dessas saliências, ou espículas.
E, assim como os braços de um soldado, não-protegidos pelo colete, as
espículas também são um alvo potencial para vacinas e terapias.
O
principal autor do estudo sobre a gp120, Stephen Harrison, da Universidade
Harvard e do Instituto Médico Howard Hughes, nos EUA, acredita que as chances de
uma vacina contra o HIV têm por base dois motivos. "O trabalho com o SIV
demonstrou que é possível vacinar macacos de modo que, se são expostos ao vírus,
eles se tornaram infectados, mas não doentes", diz Harrison.
Por trás
dessa proteção estão as chamadas células T de defesa, que mantêm os vírus em um
nível menor do que o esperado, desacelerando a progressão da doença.
"Não é o tipo de vacina verdadeiramente protetora que se gostaria de
ter, mas pode ser de amplo benefício. Essas observações estão por trás do
trabalho das estratégias de desenvolvimento de vacinas concorrentes, como a do
Centro de Pesquisa de Vacina do NIH [Institutos Nacionais de Saúde dos EUA]",
diz ele.
O segundo motivo citado por Harrison para ser otimista em
relação a vacinas é que também existem casos de anticorpos "neutralizadores" que
efetivamente bloqueiam o HIV -dos quais o mais eficaz deles foi alvo de um
estudo recente publicado na revista científica "Immunity" (www.immunity.com),
pela pesquisadora brasileira Rosa Cardoso, hoje no Instituto de Pesquisa
Scripps, na Califórnia, em colaboração com mais sete colegas. Esses anticorpos
normalmente não surgem no organismo das pessoas infectadas, só em raros casos.
Forma e função
Cardoso é especialista em cristalografia de
proteínas, uma técnica utilizada para obter a sua estrutura. "O conhecimento da
estrutura de uma proteína possibilita o entendimento profundo do modo de ação
daquela proteína e pode ser utilizado para o desenho racional de medicamentos e,
muito recentemente, de vacinas", disse ela à Folha.
O laboratório onde
ela trabalha é um dos poucos no mundo fazendo desenho racional de vacinas com
base na estrutura do complexo "antígeno-anticorpo" -antígeno é o elemento do
agente invasor que causa a reação do organismo, medida em parte pelos
anticorpos. "A idéia é que, se conhecermos os detalhes atômicos da interação
entre o anticorpo e o antígeno, poderemos desenvolver uma imitação do antígeno,
especialmente na região que estimulará o sistema imune a produzir anticorpos
contra o antígeno natural, antes do corpo ter contato com aquele antígeno
natural", afirmou a brasileira.
Segundo a pesquisadora, existem apenas
quatro anticorpos conhecidos que neutralizam eficientemente o vírus da Aids:
4E10, B12, 2F5 e 2G12. "O meu laboratório determinou a estrutura de três desses
anticorpos -4E10, B12 e 2G12- em complexo com o antígeno." O anticorpo 4E10, o
mais eficaz e objeto do último estudo, foi derivado de pacientes infectados em
Viena, Áustria. O anticorpo reconhece a glicoproteína gp41, a "base" no topo da
qual fica a gp120.
Infecção teimosa
"O HIV é diferente.
Contra a maioria dos vírus, os indivíduos que sobrevivem à infecção inicial
estão protegidos por uma resposta imune potente. Essa resposta elimina o vírus e
previne a reinfecção. Com o HIV, a maioria dos indivíduos apenas controla
parcialmente o vírus", diz em entrevista Peter Kwong, do Centro de Pesquisa de
Vacina, e pioneiro na definição da estrutura da gp120 ligada à célula infectada.
Kwong também acredita que várias evidências sugerem que uma vacina é
possível, citando especificamente os anticorpos neutralizadores e o trabalho de
Cardoso e colegas. "Quando esses anticorpos são feitos em grande quantidade, e
reinjetados em macacos, eles podem prevenir a infecção pelo S/HIV -uma "quimera"
de vírus humano e vírus símio", afirma o pesquisador.
Não é uma proteção
duradoura, pois não é o próprio animal quem produz os anticorpos. "Mas esses
experimentos provam que se você conseguir bolar um jeito de induzir o sistema de
defesa, antes que ele encontre o HIV, a produzir esses anticorpos efetivos,
então você terá proteção", afirma Kwong.
"No caso do HIV, não há bons
exemplos de imunidade natural à infecção", diz outro pesquisador do centro do
NIH, Gary Nabel; por isso o estudo da estrutura do vírus é o enfoque adotado
pelos que buscam uma vacina.
"Não há dúvida de que temos um desafio
enorme nesses esforços, e não há garantia de que seremos bem-sucedidos. Nossa
maior esperança agora é o projeto racional de uma vacina, baseado em ciência",
conclui Nabel.
Fonte: Folha de S. Paulo Texto: Ricardo Bonalume
Neto
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