Toda enquete fútil com alguma personalidade tão fútil quanto, seja
na TV ou na mídia impressa, inclui esta pergunta. Considero-a uma das mais
idiotas de todo jornalismo – mesmo para o nível desse jornalismo à la
Caras. Quem, em sã consciência, responde que não? Todo mundo se acha
romântico, de alguma maneira. É como perguntar “você é mau?”. Até os canalhas
capazes do atos mais repulsivos são igualmente propensos a fabricarem para si
mesmos uma moral que justifique e absolva seu comportamento. “Ah, eu sou OK”.
Meus amigos não me acham romântico. Carinhoso, sim; sensível, com
certeza; mas talvez pragmático demais para ser romântico. Fico me perguntando
como eles poderiam julgar, héteros a maioria que são. Me parece que, no consenso
geral sobre o romantismo, envolvendo necessariamente um homem e uma mulher,
define-se toscamente como tal uma espécie de troca de papéis. O macho, dito
bruto e inflexível, é romântico quando prova sua gentileza abrindo a porta do
carro, ou sua sensibilidade entregando um ramalhete de flores sinceras. Já a
fêmea, passiva e pura, “reacende o romance” quando vai comprar uma lingerie
vermelha ou quando enche o quarto de velas aromáticas.
Evidentemente que, entre os gays, isso não se aplica. Abrimos
nossas próprias portas, rachamos a conta meio a meio e ficamos ambos, patéticos,
esperando o outro ligar no dia seguinte. E, com o tempo, talvez influenciado
pela opinião alheia, me acostumei com a idéia de que não fazia parte dessa turma
byroniana, donjuanesca, wandoniana, que seja. Ainda mais porque tenho pouca fé
em valores intrínsecos. Prefiro relativizar tudo. Me acostumei, no meu último
namoro, a antecipar o dia dos namorados em um mês: menos fila no motel, menos
briga pra reservar o restaurante, etc.
Eis que agora conheci um outro cara. Figurinha difícil, osso
duríssimo de roer, daqueles desafios que animam a gente. No nosso segundo
encontro, duas bombas difíceis de segurar: primeiro, ele não beija em público;
segundo, e as aspas são dele, “amor eterno está lá no mesmo nível que Papai
Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada dos Dentes”. Esta última apunhalada, por
incrível que pareça, foi a que mais me doeu. Besteira, estávamos só nos
conhecendo, não precisava me encanar com anos e anos estrada afora. Mas fiquei
inacreditavelmente chocado com como aquele cara, de meros 25 anos, personificava
com tanta convicção uma descrença absoluta no poder de redenção do amor (por
mais piegas que isso possa soar). Era uma desesperança muito triste, porque era
resoluta; um mecanismo de defesa intransponível.
Claro, não consegui tocar o novo namoro. Quando terminei o
anterior e sofri muito, meus amigos insistiam que eu tinha que ser forte. Tinha
medo de que “força” significasse um certo cinismo perene para ignorar aquela dor
que parecia que não ia passar. Ou seja, medo de que ia virar exatamente este
novo carinha que conheci. Mas, com ele, percebi que não me tornei amargo ou
menos devotado. Me descobri uma minoria entre uma minoria, pois muitos gays
sequer cogitam a possibilidade, os prazeres e os sacrifícios de um
relacionamento a longo prazo. Mas, veja só, me descobri também um romântico
incurável. Ao menos ideologicamente. Não tenho pudores de demonstrar afeto
publicamente e acredito, sim, que um dia vou encontrar o cúmplice para todos os
crimes do resto da minha vida.
Então, se eu me acho romântico? A resposta não podia ser outra,
antes ou agora: hell, yeah! Feliz Dia dos Namorados pra todo mundo!
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