Você se acha romântico?
No Dia dos Namorados é hora de perguntar: o romantismo morreu ou foi você quem bateu as botas?

@Por Marcel Nadale

Toda enquete fútil com alguma personalidade tão fútil quanto, seja na TV ou na mídia impressa, inclui esta pergunta. Considero-a uma das mais idiotas de todo jornalismo – mesmo para o nível desse jornalismo à la Caras. Quem, em sã consciência, responde que não? Todo mundo se acha romântico, de alguma maneira. É como perguntar “você é mau?”. Até os canalhas capazes do atos mais repulsivos são igualmente propensos a fabricarem para si mesmos uma moral que justifique e absolva seu comportamento. “Ah, eu sou OK”.

Meus amigos não me acham romântico. Carinhoso, sim; sensível, com certeza; mas talvez pragmático demais para ser romântico. Fico me perguntando como eles poderiam julgar, héteros a maioria que são. Me parece que, no consenso geral sobre o romantismo, envolvendo necessariamente um homem e uma mulher, define-se toscamente como tal uma espécie de troca de papéis. O macho, dito bruto e inflexível, é romântico quando prova sua gentileza abrindo a porta do carro, ou sua sensibilidade entregando um ramalhete de flores sinceras. Já a fêmea, passiva e pura, “reacende o romance” quando vai comprar uma lingerie vermelha ou quando enche o quarto de velas aromáticas.

Evidentemente que, entre os gays, isso não se aplica. Abrimos nossas próprias portas, rachamos a conta meio a meio e ficamos ambos, patéticos, esperando o outro ligar no dia seguinte. E, com o tempo, talvez influenciado pela opinião alheia, me acostumei com a idéia de que não fazia parte dessa turma byroniana, donjuanesca, wandoniana, que seja. Ainda mais porque tenho pouca fé em valores intrínsecos. Prefiro relativizar tudo. Me acostumei, no meu último namoro, a antecipar o dia dos namorados em um mês: menos fila no motel, menos briga pra reservar o restaurante, etc.

Eis que agora conheci um outro cara. Figurinha difícil, osso duríssimo de roer, daqueles desafios que animam a gente. No nosso segundo encontro, duas bombas difíceis de segurar: primeiro, ele não beija em público; segundo, e as aspas são dele, “amor eterno está lá no mesmo nível que Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada dos Dentes”. Esta última apunhalada, por incrível que pareça, foi a que mais me doeu. Besteira, estávamos só nos conhecendo, não precisava me encanar com anos e anos estrada afora. Mas fiquei inacreditavelmente chocado com como aquele cara, de meros 25 anos, personificava com tanta convicção uma descrença absoluta no poder de redenção do amor (por mais piegas que isso possa soar). Era uma desesperança muito triste, porque era resoluta; um mecanismo de defesa intransponível.

Claro, não consegui tocar o novo namoro. Quando terminei o anterior e sofri muito, meus amigos insistiam que eu tinha que ser forte. Tinha medo de que “força” significasse um certo cinismo perene para ignorar aquela dor que parecia que não ia passar. Ou seja, medo de que ia virar exatamente este novo carinha que conheci. Mas, com ele, percebi que não me tornei amargo ou menos devotado. Me descobri uma minoria entre uma minoria, pois muitos gays sequer cogitam a possibilidade, os prazeres e os sacrifícios de um relacionamento a longo prazo. Mas, veja só, me descobri também um romântico incurável. Ao menos ideologicamente. Não tenho pudores de demonstrar afeto publicamente e acredito, sim, que um dia vou encontrar o cúmplice para todos os crimes do resto da minha vida.

Então, se eu me acho romântico? A resposta não podia ser outra, antes ou agora: hell, yeah! Feliz Dia dos Namorados pra todo mundo!

 
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