A biba é Elza...a mona deu Elza ou cuidado, a Elza vem aí. Nossa, quantas
expressões para qualificar um gay meliante ou quando a vizinha furtou ou roubou alguma coisa. Esse vocabulário do gueto tem a sua graça, como um idioma
alienígena que merece tradução. Mas que diabo é Elza? Alguém sabe?. Mesmo com o
pé quebrado [cai do trio na Parada Gay de Feira] dei uma de Saci Pererê e fui a
casa de Farah Dhiba.
Um septuagenário, ex-miss Pérsia Gay na
Lapa e místico vizinho, aqui do Beco do Curriachico [existe mesmo e está
encravado na lateral da Praça Castro Alves em Salvador] e lá obtive a resposta:
"Marccelus, a pobre da Elza sofreu com isso e de quebra, olha aí a etimológica
herança". Os Gays não esquecem mesmo.
O sábio mestre da astro,quiro e tarô foi
categórico.
Vem dos infortúnios da nossa amada "Tina Turner" tropical. Foi nos
anos 60. A Elza Soares foi vítima de uma campanha pública, uma cruzada de
perseguição patrocinada por "paladinos da moral e dos bons costumes". No bojo do
obscurantismo do Golpe de 64 e no mais reacionário estilo "tradição e família".
Onde se defenestrar os diferentes era o prato do dia. Rendia publicidade e muito
sensacionalismo. Faixas e cartazes a pichavam como uma mulher danosa e perigosa
ao casamento. A acusavam na época de ter "roubado o craque Mané Garrincha da
mulher e ter deixado ao desamparo, fome e relento os tantos filhos do campeão
das pernas-tortas".
Jornais, revistas e passeatas fomentavam
o preconceito e o ódio à Elza Soares. Não tenho a menor dúvida de que o
pejorativo "Elza" dos gays, relacionado ao roubo de alguma coisa ou ao se tomar
algo de alguém, tenha origem neste episódio da nossa envergonhada
história.
Com a pecha de persona non grata e rotulada como uma
"biscate" de então, Elza passou por mal bocados. Sofreu o estigma de "inimiga do
lar". Era aflitiva a situação desta corajosa mulher. Entretanto o tempo é o
senhor da razão. Tudo acabou, a extraordinária Elza mãe aos 12 anos e viúva aos
18, mostrou-se mais digna que os seus acusadores. Deu a volta por cima. Morreu
Garrincha, morreu Garrinchinha o filho do mesmo com Elza, desapareceram os que a
condenavam e mudou o país. Passou o regime militar com as suas mazelas morais e
hoje aos 67 anos Elza Soares é a própria renovação em pessoa.
Está cada dia mais sintonizada com a modernidade. Não coleciona
preconceitos e mais das vezes reitera seu carinho e o seu amor à comunidade
GLBT. Premiada internacionalmente, dona de uma das vozes mais originais da nossa
MPB e acima de tudo, estrela solidária a toda sorte de eventos gays. Elza
Soares, com título recebido de "Rainha do Movimento Gay" é a eterna musa "mulata
assanhada". Está sempre cantando e animando pelo Brasil Paradas do Orgulho
Homossexual.
A única "Elza" que lhe devemos como gratidão e
homenagem é a de ter dado um grande exemplo de lealdade a si mesma. Elza Soares
desafiou o retrocesso e fincou uma bandeira de heroísmo. Foi a primeira cantora
popular e negra no Brasil a receber no governo Jucelino a comenda Cruzeiro do
Sul e era chamada a "Embaixatriz do Samba" por Jango Goulart. Numa fase de
hipocrisia reinante ela teve a coragem de publicamente assumir o seu amor
proibido ao ídolo Garrincha. Isto nos anos de trevas da política brasileira.
Onde desfiar o status do autoritarismo era correr risco de vida. Esta é a Elza
que mutila o tempo das más lembranças. A Elza que sobreviveu a
maledicência...deu Elza? Que Elza?