Quem
tem medo dos efeminados?
Por
Wanderson F Nascimento
A diferença
só implica o negativo e se deixa levar até a contradição
na medida e que se continua a subordiná-la ao idêntico
(...) Queremos pensar a diferença em si mesma e a relação
do diferente com o diferente, independentemente das formas de
representação que as conduzem ao Mesmo e as
fazem passar pelo negativo. Gilles Deleuze. Différence
et Répétition, 1968.
Bichinha, xibungo, xeba, baitola, viadinho... Todas essas são
palavras que muitas pessoas usam para falar mal dos gays, para
ofendê-los. Porém não é qualquer
gay que é chamado assim. Dificilmente vamos adivinhar
ao estar no elevador com um executivo másculo ou em um
estádio vendo um jogo de futebol que estamos diante de
um gay. A esses a quem não sabemos de ante mão
sua orientação sexual, não se
tem motivos para ofender.
Mas é engano pensar que são
apenas os heterossexuais que têm uma visão negativa
dos gays. Os próprios gays também desenvolvem
tal imagem. O alvo predileto das investidas preconceituosas
é o efeminado.
O efeminado
é aquele sujeito que tem traços delicados, que
gesticula e fala de uma maneira pouco peculiar. Etimologicamente,
efeminado quer dizer com jeito de fêmea.
Convêm lembrar que nem sempre a imagem do efeminado
foi vista negativamente. Cito dois exemplos: Os Eunucos e
os Nobres do Século XVI, na França. Nos dois
casos não há um vínculo direto com a
homossexualidade, mas mostra exemplos onde a imagem do efeminado
era desejável. No caso dos eunucos envolve um tipo
de violência com o corpo masculino, para que ele assuma
a forma e os traços femininos, e normalmente não
dependia da vontade do próprio eunuco. Mas normalmente
os eunucos eram vistos com confiança e sem preconceitos
maiores em torno de seus traços afeminados. Já
no caso
dos nobres do séc. XVI francês, vemos essa condição
de efeminado como parte da "etiqueta" da vida da
corte. Um homem educado é um homem que é delicado
como uma mulher. E daí não se tem razão
para
preconceito, mesmo quando o indivíduo decide se efeminar.
Daí podemos retirar duas conclusões: 1. Nem
todo efeminado é necessariamente homossexual; 2. Nem
sempre o efeminado foi visto de forma negativa.
Mas no nosso presente o efeminado é mal visto. Tanto
entre os heterossexuais, como entre os gays. Em torno da figura
do efeminado se construiu um estereótipo que é
ao mesmo tempo perigoso e infundado. Eu gostaria de discutir
esse estereótipo, que apresenta a seguinte imagem do
efeminado: Ele quer ser mulher; só se interessa por
sexo, sendo por isso promíscuo e, ele é sempre
e somente passivo nas relações sexuais.
Eu digo que esta imagem é perigosa pelo seguinte motivo:
a existência da homofobia. A violência contra
gays no Brasil é um fato alarmante.
Muitas pessoas são violentadas, espancadas e até
mesmo assassinadas pelo fato de serem homossexuais. Os não
efeminados não correm tanto esse risco, posto não
ser tão evidente o fato de que eles sejam homossexuais
(vale lembrar que nem todo efeminado é homossexual).
Se olhamos as estatísticas com relação
a violência contra homossexuais, veremos que mais de
90% dos que sofrem essa violência são efeminados.
E não o sofrem apenas de heterossexuais, mas também
de alguns homossexuais, que associam a imagem do efeminado
à pratica do sexo (que se dá no foro privado)
e rejeitam sua presença em qualquer dimensão
pública.
Esse tipo de violência é algo que choca ainda
mais quando vemos que os próprios efeminados sofrem
essa violência por algo que eles não escolhem.
É como sofrer violência por ser negro. Não
se escolhe ser
negro da mesma forma que não se escolhe ser efeminado.
Não vem ao caso pensar, pelo menos aqui, qual a origem
do comportamento efeminado, a não ser identificar a
sua não voluntariedade: não se é efeminado
porque se escolheu ser. Não é, então,
justo sofrer violência em função disso.
E mesmo que fosse uma escolha, como no caso dos nobres do
séc. XVI na França, vivemos num mundo onde a
diferença é
tão presente, que já não podemos mais
exigir a identidade.
Quando eu digo que essa imagem é infundada, digo que
dentro desse estereótipo se produzem imagens que são
ou generalizações ou são incompreensões
do fenômeno da homossexualidade. Gostaria de discutir
algumas dessas imagens ligadas ao estereótipo do efeminado:
- Todo efeminado quer ser mulher. Este é um das imagens
errôneas mais comuns. Há, é claro, homens
que querem ser mulheres, mas isso não quer dizer que
todos esses homens sejam efeminados ou que eles
sejam homossexuais. Existem claramente efeminados homossexuais
(não estou pensando em transexuais) que querem ser
mulher, mas penso que eles sejam a minoria. A maioria dos
homossexuais,
efeminados ou não, são homens que gostam de
ser homens e que não querem assumir o papel feminino.
Não é o caso aqui de pensar a origem da efeminação,
mas, a princípio não creio nisso como é
uma escolha, de forma que não tem a ver com a vontade
de ser mulher, ou com qualquer tipo de vontade intencional.
-
Todo efeminado é promíscuo em função
de querer sexo o tempo inteiro. Essa é uma imagem que
se constrói em função de achar que o
jeito do efeminado é uma forma de "estar se oferecendo".
Essa é uma
das grandes fontes da violência sexual contra efeminados.
Algumas pessoas, pensando que os efeminados estão se
oferecendo se acham no direito de possui-lo, mesmo contra
a sua vontade, alegando que "se
ele está se oferecendo, é por que quer algo.
E não tem o direito de na hora que eu quero, negar
o que ele ofereceu". Muitas vezes vemos esse tipo de
reclamações de homossexuais efeminados em chats
ou jornais populares, que são os lugares onde os efeminados
ainda tentam falar. Mas não existe nenhum motivo para
que interpretemos o jeito maneirista dos efeminados como um
gesto de oferecimento. E se pensamos que o fato de ser efeminado
não é voluntário, não temos porque
ligar querer fazer sexo e ser efeminado. Isso é uma
ligação
feita por quem vê o efeminado e não por este.
- Todo efeminado é somente passivo nas relações
sexuais. Essa é uma imagem que se convencionou a aceitar
por ligar o efeminado com a vontade de ser mulher. Se o efeminado
quer ser mulher e a mulher só
pode ser penetrada, logo ele só quer ser penetrado.
Pelo mesmo motivo que dispensamos a imagem de que o efeminado
quer ser mulher, dispensamos a imagem de que ele só
seja passivo. Mas qual a importância de criticar essa
imagem? Se a gente acredita nessa imagem, vai se aproximar
do efeminado com uma imagem já definida já "sabendo"
o que ele quer. E isso pode se tornar – quando o efeminado
não for exclusivamente passivo nas relações
sexuais – uma forma de desrespeito ao desejo do efeminado,
sem dizer que estamos
reduzindo-o a um ser que deseja ser penetrado, a um ser que
só deseja sexo. Muitas pessoas em chats, sobretudo
dizem que "não querem nada com efeminados, a não
ser 'possuí-los', pois eles só querem 'dar'
mesmo..." Isso é uma forma de reduzir o efeminado
a um devasso, novamente.
Mas os preconceitos não param ai... E o sofrimento
dos efeminados também não. Muitas pessoas têm
ojeriza a efeminados, tanto héteros como homossexuais.
Quando um heterossexual se afasta de um
efeminado, talvez até que o efeminado entenda, mas
e quando isso é feito por um outro gay? Ele se sente
um "anormal entre anormais".
Muitas vezes se ouve dizer "Eu transaria com um efeminado,
mas namorar: jamais!" E essa fala não está
presente apenas na fala de não efeminados, mas na fala
de efeminados também. E aqui temos um
processo de discriminação dentro de um das condições
em que o ser humano mais sofre discriminações:
a homossexualidade.
Penso que os gays efeminados merecem todo o respeito. Primeiro
porque eles não têm como esconder sua orientação
sexual, sendo por isso alvo predileto do preconceito e da
violência. Segundo porque eles,
historicamente, foram os que mais lutaram pelos direitos que
hoje homossexuais (efeminados ou não) tenham.
Mas
muitos de nós somos muito hipócritas ainda (principalmente
entre os gays). Queremos o direito da diferença, mas
quando nós somos os diferentes. Mas quando o diferente
é o outro (em nosso caso, o
efeminado) não somos tão a favor da diferença
assim. Quantos anúncios em páginas de encontros
vimos chamadas do tipo "Gosto de tudo, sem frescura...
descarto efeminados..." Isso não é um paradoxo?
Não estou querendo agora que todos nós saiamos
por ai em busca dos efeminados para nos relacionarmos apenas
com eles, mas que tenhamos um pouco mais de cuidado com os
nossos pensamento, no que diz respeito a esse diferente de
nós, ou a esse que nós talvez sejamos.
E por que não efeminados?
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