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Bicha é quem discrimina
Por Milly Lacombe
 
Milly Lacombe é carioca de 36 anos e colunista da revista TPM,diz que um dia ela também viveu dentro do armário e explica por que os mais intolerantes são também os mais sexualmente reprimidos
 
Houve uma época na qual eu pensei que fosse, para sempre, negar minha homossexualidade, o que significa casar com alguém do sexo oposto, ter filhos e assim preencher o que se espera de você socialmente. Digo isso em resposta a alguns e-mails que recebo com perguntas como :
 
“Você sempre se assumiu dessa forma tão aberta?”.

Não, nem sempre. E minha vida bem poderia ter ido para esse lado, não fosse ter me apaixonado por uma mulher quando estava prestes a me casar com um homem. Mesmo assim, mesmo estando completamente apaixonada, pensei seriamente em casar, ter filhos e viver clandestinamente como gay. Dessa forma, imaginei, agradaria a todos e seria uma “vitoriosa” social (afinal, nessa nossa comunidade tacanha e provinciana, a mulher que não casa muitas vezes ainda se vê como uma encalhada, uma “derrotada”) e, ao mesmo tempo, sem que ninguém saísse perdendo, não bloquearia meus desejos sexuais.

 

Por que não colocar as crianças na cama e, enquanto o marido joga bola com os amigos, me mandar para um bar gay? Mas, no final, não consegui mentir tantas mentiras diferentes para tanta gente e optei pelo caminho mais simples. Não me arrependo, embora conheça pessoas que tenham escolhido o trajeto oposto e também não estejam arrependidas. Quem está certa, quem se assumiu e deixou para trás a comodidade de uma vida socialmente correta ou quem preferiu não contrariar a norma? Pois é, outra penca de e-mails que me são enviados tenta desvendar o mistério do certo e do errado. Muitas meninas, adolescentes ainda, escrevem que, embora sintam atração por mulheres, jamais conseguirão sair do armário e, por isso, sabem que vão acabar casando e tendo filhos. Muitas me perguntam: “Estou certa? O que fazer?”.

 

Vida secreta dos homens casados Difícil dizer o que fazer. Posso, sim, contar minha história. Mas mais do que isso é brincar de Deus, se meter em questões muito individuais, nas quais simplesmente não existe certo e errado. Estou lendo um livro que foi recentemente lançado nos Estados Unidos e se chama A Vida Secreta dos Homens Casados.

 

São mais de 30 depoimentos de homens entre 30 e 80 anos, casados, que contam como é viver duplamente: de dia, marido exemplar, de noite, freqüentador de saunas masculinas e outros destinos gays. Alguns conseguiram viver assim por vários anos até que não agüentaram mais e resolveram sair do armário. Outros, para minha surpresa, agiram dessa forma por toda a vida e só revelaram suas histórias depois que as esposas morreram.

 

Muitos, e essa é a melhor parte, disseram no final: “Fazer sexo com um homem não se compara a fazer sexo com uma mulher: é muito melhor. Mesmo assim, amei minha esposa até o último dia da vida dela. Se me fosse dada uma nova chance, faria tudo igual porque meu maior orgulho são meus filhos e netos”. Como você pode dizer a um sujeito de 88 anos que casou com mulher e passou a vida fazendo sexo com homens, que garante ter sido completamente feliz e ter feito a esposa feliz, que ele está errado? Pior: que ele errou por mais de 60 anos?

 

É uma questão, no mínimo, delicada. Até porque, no mundo ideal, onde todos teriam a cabeça aberta e a traição seria encarada de forma madura e natural, tanto faz se ela ocorrer com homens ou mulheres.

Quem vai dizer que casar, ter filhos e, eventualmente, se aventurar sexualmente com um parceiro do mesmo gênero é errado? Quem disse que seu irmão, seu pai, seu avô nunca sentiram atração por outro homem? E que eles nunca “deixaram rolar”?  E que sua mãe, sua avó, sua tia jamais sonharam em ir para cama com outra mulher?
Difícil é achar que coisas assim jamais tenham acontecido, por mais chocante que a imagem possa ser.
 
Leitor exemplar

Mas o que deveria perturbar não é o fato de todos nós, cedo ou tarde, nos pegarmos tendo fantasias com alguém do mesmo sexo. Nem o fato de alguns se deixarem levar pela carne e cederem ao desejo. Nem a necessidade de rotular o bravo que tenha se permitido experimentar. O que deveria perturbar é saber que são aqueles que bloqueiam e sentem vergonha de seus desejos mais íntimos os mesmos que canalizam a energia reprimida para coisas como homofobia, agressividade, intolerância. São justamente os que mais achatam a energia sexual que fazem as piadas mais grosseiras, que discriminam, ridicularizam, batem em mulheres, dão porrada em pessoas em porta de boate, posam de machões e valentões. Homens e mulheres bem resolvidos, héteros e homos, não propagam a intolerância.

O e-mail que recebi de um leitor heterossexual e, segundo ele, muito bem casado e pai de duas meninas lindas, exemplifica: “Sou feliz e não trocaria minha vida e minha família por nada. Da mesma forma que não trocaria por nada as experiências homossexuais que tive na juventude. Elas foram boas, ricas e me ajudaram a ser o homem que sou hoje”. Taí um cara que certamente não sai por aí chamando outros de bicha, fazendo piadas grosseiras, dizendo que comeu mil e uma mulheres ou fica em porta de boate esperando para espancar aquele que o atormenta justamente por ser um espelho para seus desejos mais íntimos.
 
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