Muitas vezes, é no bate-bola em voz alta de idéias aparentemente
simples que eu consigo chegar a algumas conclusões a respeito das contradições,
das vicissitudes e das especificidades de ser gay em uma sociedade
maioritariamente hétero. Esses dias, o namorado de uma amiga minha que tinha
acabado de me conhecer disse, num tom cômico, que não tinha problemas com gays
“assumidos, mas discretos” como eu, mas não entendia porque outros faziam tanta
questão de alardear sua orientação sexual nas roupas, nos trejeitos, no
comportamento.
Essa é uma questão terrivelmente polêmica, até dentro da própria
comunidade. Quem está de fora não sabe, mas mesmo os gays costumam fazer
ressalvas quanto às bichas mais “pintosas” – tanto no que diz respeito ao
convívio quanto na escolha para parceiros sexuais e afetivos. Os homens mais
másculos (ou as lésbicas mais femininas) estão sempre no topo da cadeia
alimentar, digamos.
Tesão, porém, é ingerência particular e não se discute. O que dá
para rebater é a percepção errônea de que os gays afetados deveriam ser
escondidos da sociedade porque “atraem muita atenção negativa” ao grupo como um
todo. O assunto, entretanto, costuma confundir as estações e permanece um tabu,
em especial quando é levantado por membros externos à comunidade. Soa muito como
um mecanismo camuflado de controle – “sejam gays, sim, mas não na nossa frente”.
E é triste pensar que alguns de nós já introjetaram este preconceito.
O namorado da minha amiga, porém, não estava interessado no
escopo mais amplo da polêmica. Ele só queria entender porque algum gay fazia
questão de andar por aí de mão desmunhecada, se, até mesmo como eu havia acabado
de dizer, isso ainda diminuía suas chances de arranjar um namorado. Pensei um
pouco comigo e cheguei a um exemplo comparativo. “Pense numa sala toda
mobiliada”, pedi a ele. “Agora, imagine que você está de mudança e, aos poucos,
cada móvel está sendo retirado. Nada de sofás, mesa, tapete, quadros na parede..
Até o vazio total. Qual a impressão que fica?”. Ele é formado em arquitetura e
eu sabia que tinha acertado na mosca. “Que a sala está maior do que era antes”,
respondeu.
Eu tenho a impressão de que, com os tais “gays extravagantes”,
seja a mesma coisa. Somos todos, héteros ou homos, criados desde pequeno sob uma
série de normas de conduta baseada numa definição de identidade sexual do tempo
dos nossos avós. A suspeita de ser um “viado” é a pior ofensa para qualquer
moral masculina em formação. Imagine, então, o que se passa na cabeça de um cara
como eu, depois que ele tem a coragem de enfrentar isso e dizer – “sim, eu sou
um viado, e aí?”.
O namorado da minha amiga e provavelmente você, meu leitor, não
têm idéia da sensação de liberdade que isso dá. É quase intoxicante. De repente,
a sociedade já não pode mais cercear o seu comportamento explorando seu medo de
ser alcunhado como “viado”. Oras, você já é! Você não precisa deixar de chorar
em público, ou abraçar seu amigo homem, ou até usar uma saia esvoaçante cheia de
rendas se tiver vontade. “A sala parece maior do que era”, repeti para ele. “Ou
é maior do que parecia. E aí é decisão pessoal do quanto explorar esse espaço
todo. Eu gosto do meu canto, mas tem gente que quer imitar uma chacrete de
parede a parede”.
Ele ficou quieto por intermináveis segundos. Pensei que, no fim,
a explicação improvisada (e que, modéstia à parte, me parecia genial) não havia
adiantado em nada. Então ele me respondeu, com uma certa calma lúcida. “É como
nos filmes, quando o mocinho sabe que está condenado, é torturado, mas não
revela seu segredo. ‘O que vocês vão fazer? Me matar duas vezes?’”.
“Exatamente”, respondi, com um sorriso enorme. Me senti um
vencedor num debate presidencial. Claro que, em se tratando de paralelos
cinematográficos, eu me lembraria mais facilmente da egotrip de Jeff Bridges
depois de quase morrer em Sem Medo de Viver. Nossa situação é
razoavalmente parecida – e ainda acho que esse “nossa” pode incluir também os
héteros. Quantas vezes qualquer um não deixa de fazer algo, com medo do que as
outras pessoas vão dizer? Espero que o namorado da minha amiga (também meu
amigo, agora) tenha ido para casa pensando em trocar, ele mesmo, um móvel ou
outro de lugar em sua sala.
|