A Sala Espaçosa

@Por Marcel Nadale

Muitas vezes, é no bate-bola em voz alta de idéias aparentemente simples que eu consigo chegar a algumas conclusões a respeito das contradições, das vicissitudes e das especificidades de ser gay em uma sociedade maioritariamente hétero. Esses dias, o namorado de uma amiga minha que tinha acabado de me conhecer disse, num tom cômico, que não tinha problemas com gays “assumidos, mas discretos” como eu, mas não entendia porque outros faziam tanta questão de alardear sua orientação sexual nas roupas, nos trejeitos, no comportamento.

Essa é uma questão terrivelmente polêmica, até dentro da própria comunidade. Quem está de fora não sabe, mas mesmo os gays costumam fazer ressalvas quanto às bichas mais “pintosas” – tanto no que diz respeito ao convívio quanto na escolha para parceiros sexuais e afetivos. Os homens mais másculos (ou as lésbicas mais femininas) estão sempre no topo da cadeia alimentar, digamos.

Tesão, porém, é ingerência particular e não se discute. O que dá para rebater é a percepção errônea de que os gays afetados deveriam ser escondidos da sociedade porque “atraem muita atenção negativa” ao grupo como um todo. O assunto, entretanto, costuma confundir as estações e permanece um tabu, em especial quando é levantado por membros externos à comunidade. Soa muito como um mecanismo camuflado de controle – “sejam gays, sim, mas não na nossa frente”. E é triste pensar que alguns de nós já introjetaram este preconceito.

O namorado da minha amiga, porém, não estava interessado no escopo mais amplo da polêmica. Ele só queria entender porque algum gay fazia questão de andar por aí de mão desmunhecada, se, até mesmo como eu havia acabado de dizer, isso ainda diminuía suas chances de arranjar um namorado. Pensei um pouco comigo e cheguei a um exemplo comparativo. “Pense numa sala toda mobiliada”, pedi a ele. “Agora, imagine que você está de mudança e, aos poucos, cada móvel está sendo retirado. Nada de sofás, mesa, tapete, quadros na parede.. Até o vazio total. Qual a impressão que fica?”. Ele é formado em arquitetura e eu sabia que tinha acertado na mosca. “Que a sala está maior do que era antes”, respondeu.

Eu tenho a impressão de que, com os tais “gays extravagantes”, seja a mesma coisa. Somos todos, héteros ou homos, criados desde pequeno sob uma série de normas de conduta baseada numa definição de identidade sexual do tempo dos nossos avós. A suspeita de ser um “viado” é a pior ofensa para qualquer moral masculina em formação. Imagine, então, o que se passa na cabeça de um cara como eu, depois que ele tem a coragem de enfrentar isso e dizer – “sim, eu sou um viado, e aí?”.

O namorado da minha amiga e provavelmente você, meu leitor, não têm idéia da sensação de liberdade que isso dá. É quase intoxicante. De repente, a sociedade já não pode mais cercear o seu comportamento explorando seu medo de ser alcunhado como “viado”. Oras, você já é! Você não precisa deixar de chorar em público, ou abraçar seu amigo homem, ou até usar uma saia esvoaçante cheia de rendas se tiver vontade. “A sala parece maior do que era”, repeti para ele. “Ou é maior do que parecia. E aí é decisão pessoal do quanto explorar esse espaço todo. Eu gosto do meu canto, mas tem gente que quer imitar uma chacrete de parede a parede”.

Ele ficou quieto por intermináveis segundos. Pensei que, no fim, a explicação improvisada (e que, modéstia à parte, me parecia genial) não havia adiantado em nada. Então ele me respondeu, com uma certa calma lúcida. “É como nos filmes, quando o mocinho sabe que está condenado, é torturado, mas não revela seu segredo. ‘O que vocês vão fazer? Me matar duas vezes?’”.

“Exatamente”, respondi, com um sorriso enorme. Me senti um vencedor num debate presidencial. Claro que, em se tratando de paralelos cinematográficos, eu me lembraria mais facilmente da egotrip de Jeff Bridges depois de quase morrer em Sem Medo de Viver. Nossa situação é razoavalmente parecida – e ainda acho que esse “nossa” pode incluir também os héteros. Quantas vezes qualquer um não deixa de fazer algo, com medo do que as outras pessoas vão dizer? Espero que o namorado da minha amiga (também meu amigo, agora) tenha ido para casa pensando em trocar, ele mesmo, um móvel ou outro de lugar em sua sala.

 
Envie esta página para alguém

 

 

 

 

 
© Copyright, 2001-200 - FAROFA DIGITAL® Todos os Direitos Reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do Serviço FAROFA DIGITAL.com.br. Respeite a lei dos Direitos Autorais.
.Site desenvolvido por 3D Imagens® Melhor visualizado em 800 x600